quarta-feira, 21 de março de 2012

Aula Livro 1. Sentimento do Mundo (Carlos Drummond de Andrade)

UFU 2007
PRIVILÉGIO DO MAR

Neste terraço mediocremente confortável,
bebemos cerveja e olhamos o mar.
Sabemos que nada nos acontecerá.

O edifício é sólido e o mundo também.

Sabemos que cada edifício abriga mil corpos
labutando em mil compartimentos iguais.
Às vezes, alguns se inserem fatigados no elevador
e vêm cá em cima respirar a brisa do oceano,
o que é privilégio dos edifícios.

O mundo é mesmo de cimento armado.

Certamente, se houvesse um cruzador louco,
fundeado na baía em frente da cidade,
a vida seria incerta... improvável...
Mas nas águas tranqüilas só há marinheiros fiéis.
Como a esquadra é cordial!

Podemos beber honradamente nossa cerveja.


Carlos Drummond de Andrade. "Sentimento do mundo".

Considerando o poema acima e a obra "Sentimento do mundo", marque a alternativa INCORRETA.
a) O terraço, neste poema, é lugar de encontros amorosos, pois "abriga mil corpos", o que caracteriza o texto como lírico amoroso, de influência romântica.
b) No último verso, a palavra "honradamente" confere um sentido irônico ao poema, pois caracteriza uma classe social privilegiada, indiferente aos problemas que não lhe afligem de maneira direta.
c) O edifício de "cimento armado", neste poema, confronta-se com o espaço de outro poema do livro "Morro da Babilônia", metaforizando duas classes sociais: a primeira, protegida em seus privilégios, e a última, excluída e ameaçadora.
d) O poema acima confirma a vocação de poeta social em Drummond, que coloca, em vários momentos, a poesia a favor da denúncia, e que nestes versos se reflete na idéia de privilégios econômicos para um segmento social específico.

Resposta: A

UFV 2000

Mãos dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.


(ANDRADE, Carlos Drummond de. "Antologia poética". Rio de Janeiro: Record, 1998, p.118)
Todas as alternativas seguintes correspondem a uma leitura possível do poema drummoniano, EXCETO:
a) O poema revela-nos um eu-lírico que, ignorando o passado e o futuro, opta por conhecer a realidade de seu próprio tempo.
b) O poeta renuncia ao isolamento voluntário e reafirma sua solidariedade aos companheiros, dos quais não pretende mais se afastar.
c) Ao voltar-se para a vida presente o poeta demonstra uma preocupação maior com o seu momento histórico.
d) O poeta busca a convivência com os outros homens à sua volta, não pretendendo, pois, entregar-se aos devaneios e à solidão.
e) O autor de "Mãos dadas" quer unir-se a seus semelhantes para libertar-se do passado, do presente, e do futuro de um mundo caduco que o sufoca.

Resposta: E



PUC 2002

Texto 1
A ciência do medo e da dor

[...]
As razões pelas quais sentimos dor são muito parecidas com as que nos fazem sentir medo. Do ponto de vista evolutivo, as atuais reações de medo talvez sejam um refinamento das reações mais primitivas de dor. Nesse aspecto, a capacidade de sentir dor é tão importante quanto a de sentir medo: motivar respostas de defesa diante de estímulos ameaçadores. Pessoas que de algum modo tornaram-se insensíveis à dor não reagem prontamente a estímulos desse tipo e por isso acidentam-se facilmente, sofrendo cortes, queimaduras ou até lesões ósseas.
As informações neurais de dor têm sua origem em receptores ou terminações nervosas presentes na pele, em músculos e em órgãos internos. Esses receptores transformam os ¢estímulos nociceptivos (táteis, mecânicos ou térmicos) em impulsos nervosos e os transmitem para o cérebro. Os sinais associados a estímulos de dor são especialmente eficazes em provocar medo, mas o estímulo doloroso, por si só, não causa qualquer reação de medo - isso ocorre graças à associação do estímulo da dor com outros estímulos ambientais.
[...]
Nota: nociceptivo (adj.): capaz de transmissão de dor
(Cruz, A.P.M. e Landeira-Fernandez, J. de. "Revista Ciência Hoje", vol. 29, n¡. 174, p. 21-22.)


Texto 2
Confidência do Itabirano
Carlos Drummond de Andrade

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade
[e comunicação..

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem
[mulheres e sem horizontes.

E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!

(In "Obra Completa". 6� ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, p. 57)

a) É comum caracterizar-se a dor como um fenômeno negativo. Explique como o texto 1 aponta para a possibilidade de considerá-la, ao contrário, como um fenômeno positivo.
De acordo com o texto 1, podemos caracterizar a dor como um fenômeno positivo e não negativo (como o usual), uma vez que aquele que crê que irá sentir dor tem medo, um estímulo que reduz suas chances de se envolver em algum acidente ou evento doloroso. (Juliana Katib)

b) Com base na leitura dos textos 1 e 2, compare os "estímulos nociceptivos" (texto 1, ref. 1) e a "fotografia na parede" (texto 2, verso 20) como elementos deflagradores de dor.
O poema se caracteriza pela evocação das memórias do eu-lírico, que se constituem de lembranças tristes da cidade de Itabira ("A vontade de amar, que me paralisa o trabalho, vem de Itabira"; "E o hábito de sofrer, que tanto me diverte, é doce herança itabirana"). Ao olhar a fotografia na parede, o poeta a relaciona imediatamente à dor que a cidade lhe desperta - a fotografia, portanto, o impede de desejar voltar a Itabira, assim como um estímulo nociceptivo consegue fazer com que pessoas não se arrisquem em atividades que possam causar dor.

c) Uma das características da poética de Carlos Drummond de Andrade é a recorrência de figuras que simbolizam o ser desajeitado, o homem torto, a criatura deslocada e afastada dos homens comuns. Transcreva um verso do poema que ilustre essa condição do poeta como ser deslocado diante das coisas do mundo. Justifique sua escolha.

O verso "E o hábito de sofrer, que tanto me diverte, é doce herança itabirana" revela como o eu-lírico se sente deslocado, se divertindo com a própria dor. (Juliana Katib)

UFU 1999
"Canção Amiga"

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças."

(Carlos Drummond de Andrade, ANTOLOGIA POÉTICA)

Considere o poema acima e faça o que for pedido.

a) Explique a razão pela qual esse poema pode ser considerado lírico. Fundamente sua resposta com trechos do poema.
O poema "Canção amiga" pode ser considerado lírico porque a voz lírica exprime seus sentimentos e reflexões. Este ato fica claro quando lemos "Eu preparo uma canção em que minha mãe se reconheça"; "Minha vida, nossas vidas formam um só diamante" e "Aprendi novas palavras e tornei outras mais belas". (Aline Lima da Silva)

b) Se houvesse mudança da pessoa verbal do poema para a 3ª� pessoa, ainda assim o poema poderia ser considerado lírico? Fundamente sua resposta com trechos do poema.
Se o poema fosse escrito na 3ª pessoa não seria mais considerado lírico, pois no gênero lírico é a voz do eu-lírico que se expressa, usando a 1ª pessoa do singular para expor seus snetimentos e sensações. Se fosse transposto para a 3ª pessoa, provavelmente se aproximaria mais de um poema de cunho narrativo. (Aline Lima da Silva)

UFV

Produção de Textos - Aula 2. Diferenças entre sequência e gênero textual

Exercícios de Vestibulares
(Unicamp 2011) Quando vitaminas atrapalham
Consumir suplementos de vitaminas depois de praticar exercícios físicos pode reduzir a sensibilidade à insulina, o hormônio que conduz a glicose às células de todo o corpo. Temporariamente, um pouco de estresse oxidativo – processo combatido por algumas vitaminas e que danifica as células – ajuda a evitar o diabetes tipo 2, causado pela resistência à insulina, concluíram pesquisadores das universidades de Jena, na Alemanha, e Harvard, nos Estados Unidos. Desse estudo, publicado em maio na PNAS, participaram 40 pessoas, metade delas com treinamento físico prévio, metade sem. Os dois grupos foram divididos em subgrupos que tomaram ou não uma combinação de vitaminas C e E .Todos os subgrupos praticaram exercícios durante quatro semanas e passaram por exames de avaliação de sensibilidade da glicose à insulina antes e após esse período. Apenas exercícios físicos, sem doses adicionais de vitaminas, promovem a longevidade e reduzem o diabetes tipo 2. Ao contrário do que se pensava, os resultados negam que o estresse oxidativo seja um efeito colateral indesejado da atividade física vigorosa: ele é na verdade parte do mecanismo pelo qual quem se exercita é mais saudável. A conclusão é clara: nada de antioxidantes depois de correr.
(Adaptado de “Quando vitaminas atrapalham”. Revista Pesquisa FAPESP 160, p.40, junho de 2009.)
a) Por se tratar de um texto de divulgação científica, apresenta recursos linguísticos próprios a esse gênero. Quais são eles? Transcreva dois trechos em que esses recursos estão presentes.
O texto apresentado é do tipo informativo, que tem como objetivo ser direto e claro na explicação - no caso, explicação de termos científicos. Caracteriza-se pelo uso constante de aposto, que explica algo específico, como por exemplo: "(...) reduzir a sensibilidade à insulina, o hormônio que conduz glicose às células de todo o corpo." (Adriana Miky Sakai)
b) O experimento em questão concluiu que as vitaminas atrapalham. Explique como os pesquisadores chegaram a essa conclusão.
Chegaram a essa conclusão a partir de uma experiência realizada, na qual se dividia um grupo de 40 pessoas em 2 - sendo que apenas 1 dos grupos praticaria exercício físico. A partir dessa divisão, foi realizada ainda uma subdivisão entre os que tomavam a vitamina e os que não a consumiam. O resultado permitiu perceber que as pessoas que consumiam vitaminas após a realização dos exercícios não tinham mais longevidade e nem redução do diabetes tipo 2. (Adriana Miky Sakai)

(Unicamp 2011) Os dicionários de meu pai
Pouco antes de morrer, meu pai me chamou ao escritório e me entregou um livro de capa preta que eu nunca havia visto. Era o dicionário analógico de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo. Ficava quase escondido, perto dos cinco grandes volumes do dicionário Caldas Aulete, entre outros livros de consulta que papai mantinha ao alcance da mão numa estante giratória. Isso pode te servir, foi mais ou menos o que ele então me disse, no seu falar meio grunhido. E por um bom tempo aquele livro me ajudou no acabamento de romances e letras de canções, sem falar das horas que eu o folheava à toa. Palavra puxa palavra e escarafunchar o dicionário analógico foi virando para mim um passatempo (desenfado, espairecimento, entretém, solaz, recreio, filistria). O resultado é que o livro, herdado já em estado precário, começou a se esfarelar nos meus dedos. Encostei-o na estante das relíquias ao descobrir, num sebo atrás da Sala Cecília Meireles, o mesmo dicionário em encadernação de percalina. Com esse livro escrevi novas canções e romances, decifrei enigmas, fechei muitas palavras cruzadas. E ao vê-lo dar sinais de fadiga, saí de sebo em sebo pelo Rio de Janeiro para me garantir um dicionário analógico de reserva. Encontrei dois, mas não me dei por satisfeito, fiquei viciado no negócio. Dei de vasculhar livrarias país afora, só em São Paulo adquiri meia dúzia de exemplares, e ainda rematei o último à venda na Amazon.com antes que algum aventureiro o fizesse. Eu já imaginava deter o monopólio (açambarcamento, exclusividade, hegemonia, senhorio, império) de dicionários analógicos da língua portuguesa, não fosse pelo senhor João Ubaldo Ribeiro, que ao que me consta também tem um, quiçá carcomido pelas traças (brocas, carunchos, busanos, cupins, térmitas, cáries, lagartas-rosadas, gafanhotos, bichos-carpinteiros).
Hoje sou surpreendido pelo anúncio dessa nova edição do dicionário analógico de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo. Sinto como se invadissem minha propriedade, revirassem meus baús, espalhassem aos ventos meu tesouro. Trata-se para mim de uma terrível (funesta, nefasta, macabra, atroz, abominável, dilacerante, miseranda) notícia. (Adaptado de Francisco Buarque de Hollanda, em Francisco F. dos S. Azevedo, Dicionário Analógico da Língua Portuguesa: ideias afins/thesaurus. 2ª edição atualizada e revista, Rio de Janeiro: Lexikon, 2010.)
a) A partir do texto de Chico Buarque que introduz o dicionário analógico recentemente reeditado, proponha uma definição para esse tipo de dicionário.
É um dicionário que consiste em agrupar palavras que possuem ideias semelhantes, ou seja, por analogia. (Adriana Miky Sakai)
b) Mostre a partir de que pistas do texto sua definição foi elaborada.
O autor do texto procura sempre colocar entre parênteses palavras que compartilham um mesmo campo semântico. Exemplo: "Trata-se para mim de uma terrível (funesta, nefasta, macabra, atroz, abominável, dilacerante, miseranda) notícia." (Adriana Miky Sakai)


quarta-feira, 14 de março de 2012

Interpretação de Textos - Aula 2. Questionamentos de preconceitos linguísticos, literários e culturais

Exercícios:



1. (UNIFESP 2012)

Leia o texto.


A nossa instrução pública cada vez que é reformada, reserva para o observador surpresas admiráveis. Não há oito dias, fui apresentado a um moço, aí dos seus vinte e poucos anos, bem posto em roupas, anéis, gravatas, bengalas, etc. O meu amigo Seráfico Falcote, estudante, disse-me o amigo comum que nos pôs em relações mútuas.
O Senhor Falcote logo nos convidou a tomar qualquer coisa e fomos os três a uma confeitaria. Ao sentar-se, assim falou o anfitrião:
– Caxero traz aí quarqué cosa de bebê e comê.
Pensei de mim para mim: esse moço foi criado na roça, por isso adquiriu esse modo feio de falar. Vieram as bebidas e ele disse ao nosso amigo:
– Não sabe Cunugunde: o véio tá i.
O nosso amigo comum respondeu:
– Deves então andar bem de dinheiros.
– Quá ele tá i nós não arranja nada. Quando escrevo é aquela certeza. De boca, não se cava... O véio óia, óia e dá o fora.
(...)
Esse estudante era a coisa mais preciosa que tinha encontrado na minha vida. Como era ilustrado! Como falava bem! Que magnífico deputado não iria dar? Um figurão para o partido da Rapadura.
O nosso amigo indagou dele em certo momento:
– Quando te formas?
– No ano que vem.
Caí das nuvens. Este homem já tinha passado tantos exames e falava daquela forma e tinha tão firmes conhecimentos!
O nosso amigo indagou ainda:
– Tens tido boas notas?
– Tudo. Espero tirá a medáia.


(Lima Barreto. Quase doutor.)




a) Tendo em vista o conceito contemporâneo de variação linguística, que ensina a considerar de maneira equânime as diferentes formas do discurso, avalie a atitude do narrador em relação à personagem Falcote, expressa na seguinte frase: (...) esse moço foi criado na roça, por isso adquiriu esse modo feio de falar.
O narrador tinha acabado de conhecer aquele homem (Seráfico Falcote). Analisou suas vestes, sua aparente posição social e quando o ouviu falando teve uma decepção. Rapidamente, o narrador justificou o porquê da linguagem daquele estudante ser daquele jeito: "ele veio da roça, por isso o modo feio de falar". O narrador, com esse pensamento, foi preconceituoso, rotulou o recém-conhecido como um caipira (e sendo um caipira, o narrador pensou que também não tinha cultura, estudara pouco). Mais adiante, quando ele descobre que aquele "caipira" era quase formado, com boas notas e bom conhecimento, ele se surpreende, evidenciando seu preconceito novamente.
(Andressa dos Santos Coelho)

b) Reescreva na norma-padrão – Caxero traz aí quarqué cosa de bebê e comê e em seguida transcreva um trecho da crônica em que se manifesta a atitude irônica do narrador.
Reescrita na norma padrão, a frase fica: "Caixeiro, traga qualquer coisa de beber ou comer".
O trecho em que a atitude irônica do narrador se manifesta é claramente é em: "Esse estudante era a coisa mais preciosa que tinha encontrado na minha vida. Como era ilustrado! Como falava bem! Que magnífico deputado não iria dar? Um figurão para o partido da Rapadura."
(Aline Lima - com alguns acréscimos)

2. (UNIFESP 2012)

Leia o texto.


Fazia um mês que eu chegara ao colégio. Um mês de um duro aprendizado que me custara suores frios. Tinha também ganho o meu apelido: chamavam-me de Doidinho. O meu nervoso, a minha impaciência mórbida de não parar em um lugar, de fazer tudo às carreiras, os meus recolhimentos, os meus choros inexplicáveis, me batizaram assim pela segunda vez. Só me chamavam de Doidinho.


E a verdade é que eu não repelia o apelido. Todos tinham o seu. Havia o Coruja, o Pão-Duro, o Papa-Figo. Este era o pobre do Aurélio, um amarelo inchado não sei de que doença, que dormia junto de mim. Vinha um parente levá-lo e trazê-lo todos os anos.


Em S. João não ia para casa, e só voltava no fim do ano porque não havia outro jeito. A família tinha vergonha dele em casa. Nunca vi uma pessoa tão feia, com aquele corpanzil bambo de papangu. Apanhava dos outros somente com o grito: – Vou dizer a Seu Maciel! – Mas não ia, coitado. Nem esta coragem de enredo, ele tinha. Dormia com um ronco de gente morrendo e a boca aberta, babando. Às vezes, quando eu acordava de noite, ficava com medo do pobre do Aurélio. Ouvia falar que era de amarelos assim que saíam os lobisomens. Certas ocasiões não podia se levantar, e dias inteiros ficava na cama, com um lenço amarrado na cabeça. E o seu Maciel não respeitava nem esta enfermidade ambulante: dava no pobre também.


(José Lins do Rego. Doidinho.)


Levante três características da personagem Papa-Figo e, além disso, transcreva um trecho do texto em que fique patente que ela era vítima de intolerância no colégio.

O fragmento apresenta Aurélio, o Papa-Figo, tanto do ponto de vista físico quanto moral. Quanto à aparência, destacam-se sua feiura (“Nunca vi uma pessoa tão feia”), seu tamanho e sua gordura (“corpanzil bambo”), além do fato de ser visto como uma “enfermidade
ambulante”, por ser “amarelo, inchado”, portador de moléstia desconhecida pelo narrador (“não sei de que doença”). Note-se que o apelido, Papa-Figo, faz referência a um pássaro amarelo, o que combina com Aurélio; além disso, o termo aplica-se também a uma pessoa voraz, comilona, o que também condiz com a caracterização da personagem. Sob o aspecto
moral, destaca-se sua covardia, manifesta na incapacidade de reagir às violências de que era vítima (“Nem esta coragem de enredo ele tinha”) e a condição de menino desprezado tanto pelos familiares (“A família tinha vergonha dele em casa”) quanto pelos colegas (“Apanhava dos outros”). No texto, as evidências de intolerância para com Aurélio são fornecidas em duas passagens: a primeira mostra a ação dos colegas: “Apanhava dos outros”; a segunda, a de um funcionário do colégio: “seu Maciel [...] dava no pobre também”.

(Esta é a resposta do Anglo - ninguém no Gauss acertou a questão. A maioria dos alunos até "intuiu" a resposta correta, porém apenas despejou as informações no papel, sem organização nenhuma. É preciso contextualizar cada frase que colocamos na prova. Exercícios de transcrição de trechos do texto são mais fáceis - cuidado para não perder pontos por preguiça de escrever um pequeno texto contextualizando as transcrições, ok?) 

Redação

(UNIFESP 2012)


Observe a charge, publicada no Jornal de Garulhos em 12.05.2011








Charges como essa inspiraram-se na polêmica instalada devido à orientação sobre variação linguística em um livro didático produzido para a Educação de Jovens e Adultos, Por uma vida melhor, distribuído pelo Ministério da Educação (MEC).


A passagem polêmica traz as seguintes informações:



Sírio Possenti, professor da Unicamp, em artigo publicado no jornal O Estado de S.Paulo, em 22/05/2011, afirmou:


O jornalismo nativo teve uma semana infeliz. Ilustres colunistas e afamados comentaristas bateram duro em um livro, com base na leitura de uma das páginas de um dos capítulos. Houve casos em que nem entrevistado nem entrevistador conheciam o teor da página, mas apenas uma nota que estava circulando (meninos, eu ouvi). Nem por isso se abstiveram de ‘analisar’.


O professor apontou três pontos fundamentais sobre o assunto:


I. Uma questão refere-se ao conceito de regra: quem acha que gramática quer dizer gramática normativa toma o conceito de regra como lei e o de lei como ordem: deve-se falar / escrever assim ou assado; as outras formas são erradas. Mas o conceito de regra / lei, nas ciências (em linguística, no caso), tem outro sentido: refere-se à regularidade (...). ‘Os livro’ segue uma regra. E uma gramática é conjunto de regras, também descritivas.


II. Outro problema foi responder ‘pode’ à pergunta se se pode dizer os livro. ‘Pode’ significa possibilidade (pode chover), mas também autorização (pode comer buchada). No livro, ‘pode’ está entre possibilidade e autorização. Foi esta a interpretação que gerou as reações. Além disso, comentaristas leram ‘pode’ como ‘deve’. E disseram que o livro ensina errado, que o errado agora é certo.


III. A terceira passagem atacada foi a advertência de que quem diz ‘os livro’ pode ser vítima de preconceito. Achou-se que não há preconceito linguístico. Mas a celeuma mostra que há, e está vivíssimo. Uma prova foi a associação da variedade popular ao risco do fim da comunicação. Li que o português ‘correto’ é efeito da evolução (pobre Darwin!). Ouvi que a
escrita (!) separa os homens dos animais!




Em artigo na revista Veja, em 25/05/2011, a escritora Lya Luft disse: O livro e a ideia que o fundamenta começam a merecer críticas de entidades como a Academia Brasileira de Letras e de centenas de estudiosos. Eu o vejo como o coroamento do descaso, da omissão, da ignorância quanto à língua e de algum laivo ideológico torto, que não consigo entender bem. Acrescenta: Essa variedade se chama adequação, é essencial, é natural e enriquece a língua. Mas querer que a escola ignore que existe uma língua-padrão, que todos temos o direito de conhecer, é nivelar por baixo, como se o menos informado fosse incapaz. É mais uma vez discriminar quem não pôde desenvolver plenamente suas capacidades.


No dia 19/05/2011, em seu Editorial, a Folha de S.Paulo publicou: O episódio, que faz lembrar as ferozes controvérsias gramaticais da República Velha (1889-1930), é menos relevante em si do que pelo que reitera em termos de mentalidade pedagógica. De algumas décadas para cá, a pretexto de promover uma educação ‘popular’ ou ‘democrática’, muitos educadores dedicam-se a solapar toda forma de saber implicada no repertório de conteúdos que a humanidade vem acumulando ao longo das gerações. Em vez da revolução pedagógica que apregoam, o resultado tem sido a implantação despercebida da lei do menor esforço nas escolas. Estuda-se pouco e ensina-se mal. Isso – e não suscetibilidades gramaticais – é o que deveria preocupar.


Por fim, veja-se a posição da Associação Brasileira de Linguística (ABRALIN): O livro acata orientações dos PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais) já em andamento há mais de uma década. Outros livros didáticos também englobam a discussão da variação linguística para ressaltar o papel e a importância da norma culta no mundo letrado. Portanto, nunca houve a defesa de que a norma culta não deva ser ensinada. Ao contrário, entende-se que esse é o papel da escola, garantir o domínio da norma para o acesso efetivo aos bens culturais e para o pleno exercício da cidadania. Esta é a única razão que justifica a existência da disciplina de Língua Portuguesa para falantes nativos de português. Conclui-se o texto: é importante esclarecer que o uso de formas linguísticas de menor prestígio não é indício de ignorância ou de outro atributo que queiramos impingir aos que falam desse ou daquele modo. A ignorância não está ligada às formas de falar ou ao nível de letramento. Aliás, pudemos comprovar isso por meio desse debate que se instaurou em relação ao ensino de língua e à variedade linguística.




Com base nas informações apresentadas – e em outros conhecimentos sobre o assunto discutido – elabore um texto dissertativo, em norma-padrão da língua, abordando o seguinte tema:


A questão da variação linguística no contexto da educação

São dezenas as línguas portuguesas do Brasil - e, ainda assim, com certeza sempre vai existir alguém que, ao pronunciar alguma palavra fora da norma padrão ou com seu sotaque de origem, vire motivo de deboche e sátira. Esta situação comum é um exemplo do preconceito linguístico, tema que vem sendo cada vez mais discutido entre professores de língua, alunos e jornalistas. O assunto, sem dúvida, foi desencadeado após a publicação, pelo MEC, do livro didático "Por uma vida melhor", que continha afirmações que repercutiram nacionalmente, tal como: "Mas eu posso falar 'os livro?' Claro que pode."

Segundo Marcos Bagno, autor de "Preconceito Linguístico", "essa forma de preconceito se baseia na crença de que só existe uma única língua portuguesa digna deste nome e que seria a língua portuguesa ensinada nas escolas, explicada nas gramáticas e catalogada nos dicionários." O que a maioria das pessoas deveria perceber é que a forma de escrever e de pronunciar nem sempre são iguais. Elas se distinguem de acordo com a região de moradia ou de origem de cada pessoa, dentre outros fatores.

São essas variações que enriquecem a nossa língua. O que é diferente provoca curiosidade e um certo aprendizado. A missão das escolas é acrescentar conhecimentos e não substituir a língua verdadeira pela norma padrão.

(Marlúcia)



As várias formas de se expressar

Para muitas pessoas, ouvir alguém com boa aparência falando de forma coloquial é quase imperdoável, pois a elite doutrina todos a seguirem um certo "padrão" linguístico, como sinônimo de cultura e indicador de posição social. No Brasil há várias regiões, cada uma delas com sua história, cultura e costumes próprios - por que elas não podem possuir também sua própria forma de expressão, na qual as pessoas se sintam à vontade para se comunicar?

Infelizmente, foram criadas regras demais para a língua. As crianças e adolescentes aprendem nas escolas que devem seguir normas na fala e na escrita, mas pouco aprendem sobre o quão importante são as diversas formas de falar o português no Brasil, pois é essa multiplicidade que ajuda a criar a identidade e a individualidade de cada brasileiro.

Como é de costume, os alunos aprendem a teoria generalizada de livros e de professores instruídos a diminuir sua visão e curiosidade. Apesar de aprenderem alguns tipos de variação linguística, como a sociocultural (grupo social), a geográfica (região) e a histórica (época), são ensinados a reconhecê-las, para depois ignorá-las e nunca repeti-las.

É evidente que há carência de ensino que mostre aos alunos o real valor da nossa cultura e quanta riqueza é possível adquirir observando e compreendendo as variações linguísticas.

(Aline Lima da Silva)







sábado, 3 de março de 2012

Jornal do Gauss


O Jornal do Gauss está pronto, com direito até a suplemento literário! Confiram os resultados nos links abaixo:

Jornal:

https://docs.google.com/file/d/0B5OA55vhqroDSFJuajdsekNTQW1Na0RDeVJPeU5ZQQ/edit

Suplemento:

https://docs.google.com/file/d/0B5OA55vhqroDTU15WUFMcUlSaHVEVFU2bmRIZ1ZlUQ/edit

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Produção de Textos - Aula 1. A Redação no Vestibular

Escrever um texto sobre o vestibular que use as ferramentas argumentativas (pode ser uma crônica, uma dissertação, um artigo de opinião, etc). Para compor sua redação, baseie-se na leitura das crônicas de Rubem Alves e Luis Fernando Verissimo.


Vestíbulo de coisa nenhuma

(Rubem Alves)



Os exames vestibulares são uma das maiores, possivelmente a maior praga que infesta a educação brasileira. O seu nome, derivado de “vestíbulo”, que quer dizer “átrio, entrada de um edifício”, sugere que eles são apenas uma inocente e estreita porta de entrada para as universidades. De fato, para isso foram criados. Mas freqüentemente acontece com as instituições sociais o mesmo que ocorre com os medicamentos: os efeitos colaterais não-previstos são mais importantes que os efeitos desejados. Pode ser que a cura seja pior que a doença.
É o caso dos vestibulares. Anunciados como inocentes portas de entrada, o seu efeito maior, entretanto, tem sido o seu poder de moldar e determinar os padrões de educação nas escolas de ensino médio e até mesmo de ensino fundamental. Cúmplices nesse processo são os pais. Ansiosos por ver seus filhos nas universidades, por imaginarem que um diploma vai lhes garantir segurança econômica, exercem pressões sobre as escolas no sentido de que elas se transformem em instituições dedicadas a “preparar para os vestibulares”. Boa escola é aquela que segue os modelos dos cursinhos. Aquelas que não se ajustam estão condenadas à marginalização: instituições inúteis, não preparam para os vestibulares.

Os professores que preparam as questões para os exames vestibulares, cada um mergulhado nas particularidades da sua própria disciplina, nem de longe imaginam que, ao elaborar uma questão, estão determinando os rumos da educação no Brasil. Não sabem que no simples ato de imaginar um problema eles estão determinando padrões de inteligência e padrões de conhecimento para todos os jovens do Brasil. O padrão de conhecimento refere-se à soma de informações julgadas necessárias e indispensáveis para se passar nos exames. O tipo de inteligência refere-se às operações mentais julgadas essenciais para o mesmo fim.
Ora, esses dois elementos, padrões de conhecimento e padrões de inteligência, constituem-se num resumo de toda uma filosofia da educação. Os exames vestibulares, assim, involuntariamente, estabelecem o modelo de excelência educacional a ser seguido pelas escolas.
Quanto à inteligência, é preciso saber que não há uma, mas muitas. Como na estória da Bela Adormecida, muitas delas se encontram mergulhadas em sono profundo, à espera de que um beijo de amor as acorde... Outras, segundo denúncia de Hermann Hesse, são simplesmente assassinadas. Os exames vestibulares encontram-se entre os feiticeiros que fazem dormir muitos tipos de inteligência e entre os assassinos que matam muitas outras. São, assim, culpados de bruxaria e assassinato...
Uma professora da Unicamp me contou que os alunos que mais dificuldade tinham em seguir a sua disciplina eram aqueles que haviam passado nos primeiros lugares nos exames vestibulares. Havendo desenvolvido com sucesso o tipo de inteligência necessária para passar nos vestibulares, que pressupõe haver sempre uma alternativa correta, entre as várias apresentadas, a sua inteligência não conseguia conviver com uma situação de incertezas, em que cada decisão é sempre uma aposta. Os alunos perguntavam sempre: “Mas, professora, qual é a resposta certa mesmo?”
Assim é a inteligência vestibularesca, em direta oposição à inteligência científica que, como K. Popper e Thomas Kuhn o demonstraram, só germina, cresce e dá frutos em meio às incertezas e apostas.
No caso das disciplinas incluídas na área de humanidades o resultado da inteligência vestibularesca é igualmente assassino. Paul Goodman afirmava não conhecer nenhum método para ensinar as humanidades que não as matasse. O prazer, na leitura de um livro, faz parte da própria essência do livro. Daí a impossibilidade de se ensinar as humanidades para passar no exame. O ensino das “ciências da linguagem” não desenvolve nem o prazer na leitura nem o prazer em escrever. O miserável artifício de estudar os “resumos” dos livros, com os nomes das personagens e o esboço da trama, é uma forma segura de matar o amor pelo ato vagaroso e preguiçoso de ler. De alguma forma essas disciplinas só são aprendidas se não houver uma guilhotina ao final do caminho. É como o amor: a ameaça da punição, se a performance for insuficiente, é a garantia de que ela será...
Há, depois, o absurdo da quantidade e do tipo dos conteúdos de informação que os estudantes devem trazer para os exames. Pede-se, dos estudantes, que eles saibam mais, em amplitude, do que sabem cientistas já formados. Gostaria que os professores universitários se submetessem, voluntariamente, aos exames vestibulares. Os resultados seriam muito instrutivos. Como é altamente provável que um grande número não passasse, eu inclusive, a conclusão inevitável seria a de que existe algo de absurdo nas exigências de conhecimento dos exames vestibulares.
A mente só guarda e opera conhecimentos de dois tipos: (1) os conhecimentos que dão prazer e (2) os conhecimentos instrumentais, que podem ser usados como ferramentas. Como uma altíssima porcentagem do que se exige para os exames vestibulares não é nem conhecimento que dê prazer nem conhecimento que se use como instrumento, esse supérfluo é logo esquecido. O esquecimento é uma operação da inteligência que se recusa a carregar o inútil e o que não dá prazer. A inteligência deseja viajar com leveza... Assim, todo o enorme gasto de tempo, dinheiro, energia, todo esse imenso sofrimento de filhos e pais, está destinado a terminar como os castelos de areia construídos na praia: é logo lavado pela maré do esquecimento.

O flagelo do vestibular 
(Luis Fernando Verissimo)
 
Não tenho curso superior. O que eu sei foi a vida que me ensinou, e como eu não prestava muita atenção e faltava muito, aprendi pouco. Sei o essencial, que é amarrar os sapatos, algumas tabuadas e como distinguir um bom beaujolais pelo rótulo. E tenho um certo jeito — como comprova este exemplo — para usar frases entre travessões, o que me garante o sustento. No caso de alguma dúvida maior, recorro ao bom senso. Que sempre me responde da mesma maneira: "Olha na enciclopédia, pô!"
Este naco de autobiografia é apenas para dizer que nunca tive que passar pelo martírio de um vestibular. É uma experiência que jamais vou ter, como a dor do parto. Mas isto não impede que todos os anos, por esta época, eu sofra com o padecimento de amigos que se submetem a terrível prova, ou até de estranhos que vejo pelos jornais chegando um minuto atrasados, tendo insolações e tonturas, roendo metade do lápis durante o exame e no fim olhando para o infinito com aquele ar de sobrevivente da Marcha da Morte de Batan.
Enfim, os flagelados do unificado. Só lhes posso oferecer a minha simpatia. Como ofereci a uma conhecida nossa que este ano esteve no inferno.
— Calma, calma. Você pode parar de roer as unhas. O pior já passou.
— Não consigo. Vou levar duas semanas para me acalmar.
– Bom, então roa as suas próprias unhas. Essas são as minhas...
– Ah, desculpe. Foi terrível. A incerteza, as noites sem sono. Eu estava de um jeito que calmante me excitava. E quando conseguia dormir, sonhava com múltiplas escolhas: a) fracasso, b) vexame, c) desilusão. E acordava gritando: Nenhuma destas! Nenhuma destas! Foi horrível.
– Só não compreendo por que você inventou de fazer vestibular a esta altura da vida...
– Mas quem é que fez vestibular? Foi meu filho! E o cretino está na praia enquanto eu fico aqui, à beira do colapso.
Mãe de vestibulando. Os casos mais dolorosos. O inconsciente do filho às vezes nem tá, diz pra coroa que cravou coluna do meio em tudo e está matematicamente garantido. E ela ali, desdobrando fila por fila o gabarito. Não haveria um jeito mais humano de fazer
a seleção para as universidades? Por exemplo, largar todos os candidatos no ponto mais remoto da floresta amazônica e os que voltassem à civilização estariam automaticamente classificados?
Afinal, o Brasil precisa de desbravadores. E as mães dos reprovados, quando indagadas sobre a sorte dos seus filhos, poderiam enxugar uma lágrima e dizer com altivez:
– Ele foi um dos que não voltaram...
Em vez de:
– É um burro!
Os candidatos à Engenharia no Rio de Janeiro poderiam ser postos a trabalhar no metrô dia e noite; quem pedisse água seria desclassificado.
O Estado acabaria com poucos engenheiros novos — aliás, uma segurança para a população —, mas as obras do metrô progrediriam como nunca. Na direção errada, mas que diabo.
O certo é que do jeito que está não pode continuar. E ainda por cima há os cursinhos pré-vestibulares. Em São Paulo os cursinhos estão usando helicópteros na guerra pela preferência dos vestibulandos que terão que repetir tudo no ano que vem. Daí para o
napalm, o bombardeio estratégico, o desembarque anfíbio e, pior, uma visita do Kissinger para negociar a paz, é um pulo. Em São Paulo há cursinhos tão grandes que o professor, para se comunicar com as filas de trás, tem que usar o correio. Se todos os alunos de cursinhos no centro de São Paulo saíssem para a rua ao mesmo tempo, ia ter gente caindo no mar em Santos. O vestibular virou indústria. E os robôs que saem das usinas pré-vestibulares só têm dois movimentos: marcar cruzinha e rezar.
O filho da nossa nervosa amiga chegou em casa meio pessimista com uma das suas provas.
— Sei não. Acho que entrei pelo cano. O Inglês não estava mole.
– Mas meu filho, hoje não era inglês! Era física e matemática!
– Oba! Então acho que fui bem.


Redações dos gauseanos:

Tantos anos... à toa? 
(Andressa dos Santos Coelho)

Fim de ano é sempre uma época diferente, que exige preparativos e comemorações de festas especiais. Mas, para quem passou o ano todo estudando, é a hora de passar pelo teste dos testes: o vestibular. Ele, que tira o sono de muita gente e que a cada ano se torna mais difícil e concorrido.
Nós passamos mais de dez anos na escola, do Ensino Fundamental ao Médio. São-nos ensinadas tantas coisas, passamos por inúmeras avaliações, notas nos são atribuídas, um histórico completo é formado. Só que basta nos submetermos a um simulado para perceber que tanto tempo não nos fez aprender quase nada e esquecer quase tudo.
A escola basicamente nos ensina a saber ler e escrever (o necessário, é claro). Começa então a preparação para o vestibular - cursinho, apostilas, livros, força de vontade, esforço... e tudo isso para aprender o que deveria ter sido aprendidfo. Então, surge a pergunta: por que a escola não ensina exatamente o que cai no vestibular? Ou melhor, por que no vestibular não cai somente o que é ensinado na escola? (...)
As provas no vestibular são, na verdade, provas de resistência. Textos, diversas fórmulas, cálculos, teorias, redações... (...) A forma de avaliação deveria mudar. O estudante deveria ser avaliado por completo, por toda a sua vida na escola - o que ele fez, seus trabalhos, suas horas de estudo, sua frequência, seu comportamento, etc.
O aluno que fomos durante todos os anos de escola deveria ser levado em conta. As escolas, por sua vez, têm de ensinar a realidade dos vestibulares - os exercícios difíceis, ensinar a escrever melhor, nos tornar pensadores melhores. (...) O estudo para o vestibular, o estudo para a vida, deve ser levado a sério desde cedo. 

O padrão vestibularesco
(Juliana Katib)

Os concorridos exames vestibulares: dias e noites de dedicação aos estudos em busca da tão sonhada vaga na universidade. Apesar de parecer algo inocente (afinal, são apenas estudantes tentando garantir um bom futuro), os exames vestibulares criam padrões de inteligência - necessários para conseguir passar pelas provas.
Assim, a educação é toda baseada nos conteúdos do vestibular, desde o Ensino Fundamental até o Médio. Nem todas as escolas seguem esse esquema, entretanto. Nas escolas públicas (em comparação com os cursinhos pré-vestibulares) torna-se visível que o tempo que dedicamos a aprender foi perdido ou constituiu apenas uma pequena base do que realmente deveríamos aprender para passar nos exames.
A inteligência vestibularesca é a dúvida criada em meio a várias alternativas de aprendizagem, dentre as quais apenas uma está correta. Para nos prepararmos para os exames, precisamos apenas das informações julgadas necessárias... e o resto? O resto, são apenas alternativas erradas.

Comentários:
As redações da Andressa e da Juliana são interessantes por trazerem novas visões sobre o tema. Para Andressa, há um descompasso entre o conteúdo ensinado nas escolas e o cobrado nos vestibulares, que precisa ser resolvido. Juliana, por sua vez, ainda que também sustente esse ponto de vista, questiona mais fortemente se a situação não deveria ser reversa - o vestibular é que deveria acompanhar o ritmo da aprendizagem das escolas.
 
 

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Interpretação de Textos - Aula 1. Exercício de sensibilização

Trabalho com os cinco sentidos  

a) Associar à música escutada em sala:
1)um cheiro
2) uma cor
3) uma sensação
4) um gosto
 
b) Sentir-se no lugar do outro: Trocar aleatoriamente os textos com os quatro sentidos descritos.

Cada aluno deve tomar a redação do colega e compor uma narrativa curta a partir das sensações descritas.



Gabriel M. Cruz
- Cheiro de macarrão
- Vermelho
- Tranquilo
- Doce refinado

A partir das sensações do Gabriel, a Juliany escreveu:

"É só mais um temporal, já já passa" - citei pela segunda vez em voz alta para ninguém além da parede. Olhei em volta e não havia nada ali que me agradasse, o cheiro de macarrão de aspecto duvidoso à minha frente era apenas mais uma prova de minha ingenuidade ao bater o pé e brigar por independência. Outrora, em dias chuvosos, estaria deitada sob a velha manta vermelha, um pouco gasta, enquanto lia um bom livro, devorando-o como se fora um doce refinado. Meus pensamentos flutuavam quando um trovão trouxe-me à realidade. A única luz de que dispunha era a de uma vela, já que a energia havia acabado. "Quem dera o tempo voltasse" - pensei desanimada enquanto ia para a cama depois de jogar o macarrão fora e apagar a pequena chama da vela.  

No texto da Juliany, ela cria uma personagem que vive maus momentos após ter decidido se tornar independente. Sem ninguém para lhe fazer companhia e nada que lha traga conforto, resigna-se a viver de nostalgias.  

Tiago B. Buscarelli
- Cheiro de mato, floresta, campo
- Cor verde musgo
- Sensação agradável, muita calma, relaxante
- Gosto igual a de um café sem açúcar

A partir das sensações do Tiago, o Jefferson escreveu:

Posso me considerar uma pessoa feliz, pois aproveitei minha infância ao máximo. Com bons amigos, sempre procurei aventuras em ambientes agradáveis: descobrindo trilhas na floresta verde musgo, relaxando com o cheiro de mato, contemplando os lindos campos sempre com muita calma, sem pressa em passar o tempo. Hoje, entretanto, vivo em um lugar onde a floresta se transformou em grandes árvores de ferro e a sensação é igual a de um café sem açúcar.  

No texto do Jefferson, o protagonista também vive infeliz no tempo presente e tem uma relação saudosista com sua infância.

Raiane Emanuele
- Cheiro de ar puro; das árvores
- Vermelho
- Sensação de estar em um outro lugar, longe daqui
- Gosto doce; chocolate

A partir das sensações da Raiane, a Fernanda Devecchi Prado escreveu:

Hoje, enquanto estava passando novamente em um dos vários congestionamentos quilométricos da nossa capital, fui tomado por um intenso sentimento de nostalgia ao ver um grupo de 4 crianças que corriam pela chuva, gritando, chutando poças de água e rindo no canteiro central, que separa as vias de uma das principais avenidas da cidade. Ao ver essa cena lembrei-me da minha infância, quando eu, meus irmãos e primos corríamos entre as árvores da pequena cidade de Registro, no interior de São Paulo, e após horas de brincadeira íamos até a varanda da casa para observar o belo pôr-do-sol que tingia magicamente todo o céu de vermelho. Sem dúvida, o mais belo espetáculo que já presenciei e que era acompanhado pela degustação de um maravilhoso pudim de chocolate - daqueles que só as mãos mágicas das avós podem fazer.

No texto da Fernanda, novamente vemos um protagonista que sente saudades de uma infância mais simples e com mais contato com a natureza.  

Filipi Bucciorell
- Cheiro insuportável (desagradável)
- Vermelho, preto, azul, todos misturados
- Sensação de loucura
- Gosto meio amargo (Diamante Negro)

A partir das sensações do Filipi, a Jaqueline de Matos Silva escreveu:

Mais um dia, aquela mesma rotina, milhares de pessoas à beira da loucura nessa capital maluca. Um vai e vem que lembra uma corrida para o fim desta tortura. A hora passa, o ritmo continua, as pessoas mudam, mas aquela fadiga desagradável continua provocando um gosto amargo insuportável. O absurdo é inevitável - todos misturados, sem sequer saber para onde são levados.  

No texto da Jaqueline, a frustração de viver em um lugar "sem açúcar e sem afeto" dá o tom do conto.

domingo, 2 de outubro de 2011

Aula 19. Os temas polêmicos





Graziele de La Torre:

Estudos recentes tentam mostrar que o homossexualismo tem um vínculo com a genética, mas ainda deixam o assunto um pouco vago, sem muitas certezas, justamente porque existem pessoas que são homossexuais por uma questão única: a escolha.
Talvez essa escolha surja a partir das influências culturais, sociais e até mesmo políticas, afinal, o ser humano tem a sua personalidade formada a partir da sociedade em que o mesmo se incide. E ainda hoje nem todas as escolhas pessoais são bem vistas e aceitas por outras pessoas, assim gerando o preconceito.
Agressões físicas, verbais, exclusão social e outras coisas são consequências preconceituosas de uma escolha pessoal, o que leva uma pessoa a reprimir seus sentimentos dentro de si e a se comportar de acordo com o padrão que lhe é imposto, causando-lhe a infelicidade.
Por fim, a homossexualidade não é um problema a ser excluído e sim algo a ser entendido.
Nos dias atuais e nos dias futuros, os gays conquistam e conquistarão diversos direitos que mudarão a vida deles e de quem os rodeia, causando o efeito de preocupação em respeitar a opção sexual do próximo.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Aula 12. A sequência descritiva

(Unesp 1995) Sabemos que a Poesia Concreta adota, entre outros procedimentos, a valorização do poema no espaço branco da página. Com apoio das artes gráficas, os textos ganham em expressividade visual. Baseado neste comentário, releia o poema de Arnaldo Antunes, como foi originalmente editado na figura adiante, e responda:



(Antunes, Arnaldo - TUDOS. - 3 ed., São Paulo: Iluminuras, 1993)

a) Em que sentido esse texto poderia se enquadrar nos parâmetros da Poesia Concreta?
O poema apresenta a construção gráfica própria dos poemas concretos.
JOÃO RICARDO

b) Justifique sua resposta fazendo uma descrição de, pelo menos, um procedimento gráfico expressivo na construção do poema.
As repetições das palavras "pensa" e "nunca", que vão sendo ampliadas, dão toda a intensidade do poema.
JOÃO RICARDO

Unicamp 2008
Trabalhe sua narrativa a partir do seguinte recorte temático:
Hoje, mais do que nunca, podemos afirmar que “a cidade não dorme”. Além de freqüentarem bares, clubes, cinemas e bailes, há um crescente número de pessoas que circulam à noite pela cidade, física ou virtualmente, trabalhando, consumindo, estudando, divertindo-se.
Instruções:
• Imagine a história de um(a) personagem que encontre um grupo que vivencia a noite e, identificando-se com ele, passe a ver a cidade a partir de uma nova perspectiva;
• Narre o encontro, o processo de descoberta e a transformação que o(a) personagem experimentou;
• Sua história pode ser narrada em primeira ou em terceira pessoa.



Severino

Severino sempre foi um sujeito pacato, mas, nos últimos dias, ela andava muito agitado, com um sentimento que lhe apertava o peito: saudades de algo que não conhecia.
Entre um pensamento e outro, sua dor só fazia aumentar. Em meio a essa confusão emocional, nosso herói começou a pensar no tempo em que ele ajudava o seu velho pai. Mestre de obra de primeira, sabia de quase tudo sobre construção civil.
Severino, entretanto, não queria essa vida. (...) Foi nessa época que decidiu vir para São Paulo. Logo que chegou, já lhe arrumaram serviço de porteiro em um edifício comercial na Avenida Paulista. E é em uma dessas tardes tipicamente paulistanas que ele se encontra, mais melancólico que antes.
Coitado, não via a hora de sair, ver a rua, respirar o ar puro. Severino mal esperou o colega chegare já foi batendo cartão, sufocado. Quando o jovem deu por si, já havia andado um bom pedaço.
Seus sentidos começaram a funcionar novamente. Identificou um som familiar, o de zabuca, mais o retinir do triângulo e a sanfona que aquecia o coração.
Em muito pouco tempo, já estava agarrado com uma morena dançando forró. E no final da noite, quando voltava para casa, era já outro homem. Havia encontrado o que lhe faltava: a sua identidade cultural.

WALDIR

Aula 10. Elementos da sequência narrativa: tempo e espaço

Tempo

(Unicamp 2006)


Leia o trecho a seguir e responda:
– Vovô, eu quero ver um cometa!
Ele me levava até a janela. E me fazia voltar os olhos para o alto, onde o sol reinava sobre a Saracena.
– Não há nenhum visível no momento. Mas você há de ver um deles, o mais conhecido, que, muito tempo atrás, passou no céu da Itália.
Muito tempo atrás...atrás de onde? Atrás de minha memória daquele tempo.
E vovô Leone continuava:
– Um dia, você há de estar mocinha, e eu já estarei morando junto das estrelas. E você há de ver a volta do grande cometa, lá pelo ano de 2010...
Eu me agarrava à cauda daquele tempo que meu avô astrônomo me mostrava com os olhos do futuro e saía de sua casa. Na rua, com a cabeça nas nuvens, meus olhos brilhavam como estrelas errantes. Só baixavam à terra quando chegava à casa de vovô Vincenzo, o camponês.
(Ilke Brunhilde Laurito, A menina que fez a América. São Paulo: FTD, 1999, p. 16.)

No trecho "Muito tempo atrás... atrás de onde? Atrás de minha memória daquele tempo."
a) Identifique os sentidos de ‘atrás’ em cada uma das três ocorrências.
Na primeira ocorrência, no excerto "muito tempo atrás", o termo "atrás" tem o mesmo sentido de "anteriormente". Na segunda corrência ("atrás de onde?"), o termo (indica uma localização). Na terceira ocorrência "Atrás da minha memória daquele tempo") há a referência simultânea ao espaço e ao tempo.
VANESSA ALVES/ JOÃO RICARDO

b) Compare "Atrás de minha memória daquele tempo" com "Atrás do jardim da minha casa". Explique os sentidos de ‘atrás’ em cada uma das frases.
Os dois "atrás" possuem sentidos diferentes em cada frase. O da frase "Atrás da minha memória daquele tempo" refere-se a algo situado anteriormente em tempo e posteriormente em posição. O da frase "Atrás do jardim da minha casa" refere-se unicamente à espacialidade, à localização.
JOÃO RICARDO

Espaço

(Unicamp 2009)

Observe o poema abaixo. Nele, Carlos Drummond de Andrade reescreve a famosa “Canção do Exílio” de Gonçalves Dias, na qual o poeta romântico idealiza a terra natal distante:

NOVA CANÇÃO DO EXÍLIO
A Josué Montello

Um sabiá
na palmeira, longe.
Estas aves cantam
um outro canto.

O céu cintila
sobre flores úmidas.
Vozes na mata,
e o maior amor.

Só, na noite,
seria feliz:
um sabiá,
na palmeira, longe.

Onde é tudo belo
e fantástico,
só, na noite,
seria feliz.
(Um sabiá,
na palmeira, longe.)

Ainda um grito de vida e
voltar
para onde é tudo belo
e fantástico:
a palmeira, o sabiá,
o longe.

Além de expatriação, a palavra exílio significa também “lugar longínquo” e “isolamento do convívio social”.
a) Quais palavras expressam estes dois últimos significados no poema de Drummond?
O lugar longínquo é expressado pela palavra "longe". (O isolamento, pela repetição da palavra "só").
CAMILA MORAES

b) Como o eu lírico imagina o lugar para onde quer voltar?
O eu-lírico imagina um lugar ameno, perto da natureza, onde ele se sentiria bem e provavelmente seria feliz.

(UERJ 2007 - Adaptada)

O adeus / Rubem Braga

No oitavo dia sentimos que tudo conspirava contra nós. Que importa a uma grande cidade que haja um apartamento fechado em alguns de seus milhares de edifícios; que importa que lá dentro não haja ninguém, ou que um homem e uma mulher ali estejam, pálidos, se movendo na penumbra como dentro de um sonho? Entretanto a cidade, que durante uns dois ou três dias parecia nos haver esquecido, voltava subitamente a atacar. O telefone tocava, batia dez, quinze vezes, calava-se alguns minutos, voltava a chamar; e assim três, quatro vezes sucessivas.
Alguém vinha e apertava a campainha; esperava; apertava outra vez; experimentava a maçaneta da porta; batia com os nós dos dedos, cada vez mais forte, como se tivesse certeza de que havia alguém lá dentro. Ficávamos quietos, abraçados, até que o desconhecido se afastasse, voltasse para a rua, para a sua vida, nos deixasse em nossa felicidade que fluía num encantamento constante.
Eu sentia dentro de mim, doce, essa espécie de saturação boa, como um veneno que tonteia, como se meus cabelos já tivessem o cheiro de seus cabelos, se o cheiro de sua pele tivesse entrado na minha. Nossos corpos tinham chegado a um entendimento que era além do amor, eles tendiam a se parecer no mesmo repetido jogo lânguido, e uma vez que, sentado, de frente para a janela por onde se filtrava um eco pálido de luz, eu a contemplava tão pura e nua, ela disse: “Meu Deus, seus olhos estão esverdeando”.
Nossas palavras baixas eram murmuradas pela mesma voz, nossos gestos eram parecidos e integrados, como se o amor fosse um longo ensaio para que um movimento chamasse outro: inconscientemente compúnhamos esse jogo de um ritmo imperceptível, como um lento bailado. Mas naquela manhã ela se sentiu tonta, e senti também minha fraqueza; resolvi sair, era preciso dar uma escapada para obter víveres; vesti-me lentamente, calcei os sapatos como quem faz algo de estranho; que horas seriam?
Quando cheguei à rua e olhei, com um vago temor, um sol extraordinariamente claro me bateu nos olhos, na cara, desceu pela minha roupa, senti vagamente que aquecia meus sapatos. Fiquei um instante parado, encostado à parede, olhando aquele movimento sem sentido, aquelas pessoas e veículos irreais que se cruzavam; tive uma tonteira, e uma sensação dolorosa no estômago.
Havia um grande caminhão vendendo uvas, pequenas uvas escuras; comprei cinco quilos. O homem fez um grande embrulho de jornal; voltei, carregando aquele embrulho de encontro ao peito, como se fosse a minha salvação. E levei dois, três minutos, na sala de janelas absurdamente abertas, diante de um desconhecido, para compreender que o milagre acabara; alguém viera e batera à porta, e ela abrira pensando que fosse eu, e então já havia também o carteiro querendo o recibo de uma carta registrada, e quando o telefone bateu foi preciso atender, e nosso mundo foi invadido, atravessado, desfeito, perdido para sempre – senti que ela me disse isso num instante, num olhar entretanto lento (achei seus olhos muito claros, há muito tempo não os via assim, em plena luz), um olhar de apelo e de tristeza onde entretanto ainda havia uma inútil, resignada esperança.


O título do texto de Rubem Braga é o prenúncio de uma idéia de separação que percorre a narrativa. Essa idéia é percebida pelos personagens por meio da invasão do espaço? Justifique.
A ideia de separação presente no título "Adeus" é percebida como a invasão do espaço pelas personagens, pois os dois queriam se isolar da realidade e para isso trancaram-se em um apartamento a fim de que as influências externas não perturbassem a vida pessoal do casal. Contando com a espécie de barreira de um ambiente completamente fechado tentaram ali interromper o cotidiano agitado da cidade. Entretanto, quando por um instante se viram fazer parte daquela rotina novamente, perceberam que o seu "nosso mundo foi invadido, atravessado, desfeito, perdido para sempre".
CAMILA MORAES

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Aula 9. Elementos da sequência narrativa: enredo, narrador e personagem

(UEM 2007 - adaptada) Leia o texto a seguir e responda ao que se pede.

Apelo
Dalton Trevisan

Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho.

Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, até o canário ficou mudo. Não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam. Ficava só, sem o perdão de sua presença, última luz na varanda, a todas as aflições do dia.

Sentia falta da pequena briga pelo sal no tomate — meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa. Calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolha? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor.

a) Identifique e escreva qual é o tema do conto, o tipo de narrador, o espaço (ou espaços) em que se passa a ação e os personagens principais da história.
O tema do conto Apelo é um pedido do narrador que ficou desestruturado com a partida da Senhora. O espaço em que se desenvolve a ação é em uma casa, principalmente. Os personagens principais são o narrador e a Senhora que partiu. O tipo de narração é a feita em primeira pessoa.
LUCIENE SANTOS

b) Em relação à compreensão do conto, discorra sobre as relações que podem ser estabelecidas entre tema, o tipo de narrador, o espaço (ou os espaços) em que se passa a ação e os personagens principais do enredo.
O narrador se descreve de maneira a deixar implícita a sua brutalidade, sua secura, a sua ausência de demonstrações de afeto, que, ao seu ver, era seu "jeito de querer bem". Ao se encontrar, contudo, sem a presença da Senhora, percebe que sua casa ambém vai se transformando em um local em que reina a falta de carinho e de cuidado. Roga pela volta da Senhora para que ela seja a mediadora da brutalidade que reina na casa e em sua vida.

Exercício de Escrita IX:

(UEL 2010)





A foto, feita pelo fotógrafo amador Haruo Ohara (1909- 1999). registra a presença de duas crianças brincando em uma área rural. A menina empunha uma sombrinha e o garoto usa chapéu, o que sugere um dia de sol. As crianças não têm brinquedos e se divertem com o que encontram naquele momento. O garoto segura com firmeza a escada, demonstrando zelo e cuidado com a companheira de diversão.

Com base nesses elementos e na observação da imagem, elabore um texto narrativo em que as lacunas dessa cena sejam preenchidas por personagens, conflitos e ações, num determinado tempo e espaço.

Vamos brincar?

A pequena garota observa o brinquedo. Ele é composto por dois troncos de madeira mal talhados em posição vertical, um paralelo ao outro. Entre os dois troncos, há sete pequenos degraus distribuídos uniformemente, cada um colocado em posição perpendicular ao tronco oposto. Não há muita razão em um brinquedo como este, mas para uma criança um simples objeto pode se transformar em algo de muita utilidade e diversão. É por esse ponto de vista que a garotinha vê esse aparelho tão complexo. Isabel. Este é o seu nome.
O céu azul que compõe esse ambiente mescla-se com nuvens cinzas. É sinal de chuva. Mas Isabel ouviu as ordens da mamãe: "Leve seu guarda-chuva, minha querida, pois choverá esta tarde". Isabel, com seu guarda-chuva em punho, sente vontade de subir o brinquedo que se encontra à sua frente. Degrau por degrau, vai e se senta. Olha para baixo e sente um friozinho na barriga, já que para ela, que é tão miudinha, aqueles dois metros de altura significam uma infinitude.
Olha para cima. O sol ardente, dardejando raios brilhantes, ofusca sua visão. Isabel agora sente-se sozinha, pois não há ninguém no parque para brincar com ela. (...) A imensidão do local traz um vazio em seu peito. Não é tédio. É a esperança de que aparecerá alguém para divertir-se junto a ela. (...)
Então abre seu guarda-chuva. E o fecha. E o abre novamente, resolvendo deixá-lo desta vez nesta mesma posição. Olha para o horizonte e vê alguém vindo. Em alguns instantes esse alguém, que é um pequeno menino, surge em feições abaixo de Isabel, no pé do brinquedo. Olham-se nos olhos. O menino sugere saltar de cima das toras de madeira, utilizando o guarda-chuva para alçar o pequeno voo (igual aos desenhos da tv).
Isabel olha desconfiada pequeno Vinícius. Ela é medrosa e sente desconfiança sobre a possibilidade de realizar este feito. Após instantes, ela resolve aceitar. Levanta-se, apoiando-se no sétimo e último degrau. Ergue o braço direito, com o guarda-chuva aberto nas mãos e salta.
Foi rápido. No salto, o guarda-chuva envergou e a pequena caiu violentamente no chão. Quando chegou ao solo, abriu o choro - um berro estrondoso. Olhou para os lados, os olhos cheios de lágrimas, procurando Vinícius, o dono dessa ideia de Jacó. Mas ele não estava mais lá. Isabel, então, sentiu-se mais sozinha do que nunca. Começou a chover.

JOÃO RICARDO

Aula 8. Diferença entre seqüência textual e gênero textual



Exercícios de vestibulares

(Unicamp 2011)
Quando vitaminas atrapalham
Consumir suplementos de vitaminas depois de praticar exercícios físicos pode reduzir a sensibilidade à insulina, o hormônio que conduz a glicose às células de todo o corpo. Temporariamente, um pouco de estresse oxidativo – processo combatido por algumas vitaminas e que danifica as células – ajuda a evitar o diabetes tipo 2, causado pela resistência à insulina, concluíram pesquisadores das universidades de Jena, na Alemanha, e Harvard, nos Estados Unidos. Desse estudo, publicado em maio na PNAS, participaram 40 pessoas, metade delas com treinamento físico prévio, metade sem. Os dois grupos foram divididos em subgrupos que tomaram ou não uma combinação de vitaminas C e E. Todos os subgrupos praticaram exercícios durante quatro semanas e
passaram por exames de avaliação de sensibilidade da glicose à insulina antes e após esse período. Apenas exercícios físicos, sem doses adicionais de vitaminas, promovem a longevidade e reduzem o diabetes tipo 2. Ao contrário do que se pensava, os
resultados negam que o estresse oxidativo seja um efeito colateral indesejado da atividade física vigorosa: ele é na verdade parte do mecanismo pelo qual quem se exercita é mais saudável. A conclusão é clara: nada de antioxidantes depois de correr.
(Adaptado de “Quando vitaminas atrapalham”. Revista Pesquisa FAPESP 160, p.40, junho de 2009.)

a) Por se tratar de um texto de divulgação científica, apresenta recursos linguísticos próprios a esse gênero.
Quais são eles? Transcreva dois trechos em que esses recursos estão presentes.

Além de uma linguagem específica do ramo científico, os recursos linguísticos utilizados em um texto de divulgação contribuem para a identificação do gênero misto de divulgação científica. Como a notícia anunciada surge depois de muitas pesquisas, é comum encontrar a argumentação em torno do resultado da descoberta científica, como podemos observar no trecho: "Temporariamente, um pouco de estresse oxidativo – processo combatido por algumas vitaminas e que danifica as células – ajuda a evitar o diabetes tipo 2, causado pela resistência à insulina, concluíram pesquisadores das universidades de Jena, na Alemanha, e Harvard, nos Estados Unidos". O modo explicativo é outro recurso comum, como nota-se no excerto a seguir: "Consumir suplementos de vitaminas depois de praticar exercícios físicos pode reduzir a sensibilidade à insulina, o hormônio que conduz a glicose às células de todo o corpo."
CAMILA MORAES

(UEM 2007) UEM/CVU
Leia com atenção as definições do Dicionário Houaiss para sinopse.

Sinopse. s. f. relato breve, síntese, sumário (de um filme, de um livro, de uma ópera); em revista científica, apresentação
concisa da matéria de um artigo, de um comunicado etc. e que, para dar ao leitor um apanhado do texto integral, é
colocada entre este e o título.
Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. 1.ª reimpressão. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004. p. 2581.



Como água para chocolate
Sinopse: Baseado em romance do mesmo nome, de Laura Esquivel, Como Água Para Chocolate acompanha a história de
um camponês chamado Pedro (Marco Leonardi) que, em 1910, em plena Revolução Mexicana, apaixona-se por Titi
(Lumi Cavazos). Ele quer voltar para a Guerra, mas ela o enfeitiça com seu amor e seus dotes culinários. Podia ser apenas
mais uma história de amor, mas trata-se de um dos mais belos filmes do cinema latino-americano em todos os tempos. Foi
a produção estrangeira de maior bilheteria nos Estados Unidos em 1993. DVD Video. Romance. Duração aprox.: 104
minutos. NTSC.

Brazil – O Filme
Sinopse: Não, não se passa em terras brasileiras a visão de Terry Gilliam para o futuro, com um estado burocrático,
ineficiente, mas obstinado em cercear a liberdade dos cidadãos como nas histórias de George Orwell. “Brazil” vem
apenas da música de Ary Barroso.
Revista Monet, n.º 50, maio de 2007, p. 41.

a) Com base na definição de Houaiss, aponte se ambos os textos podem ser considerados sinopses. Por quê?

O primeiro texto "Como água para chocolate" pode ser considerado uma sinopse. pois conta de forma reduzida a trama do filme. O segundo texto, "Brazil-o filme" não é considerado sinopse porque faz apenas um comentário sobre a obra em questão, (sem fornecer elementos concisos sobre seu enredo, na forma de síntese).
CAMILA MORAES

b) Retire do(s) texto(s) que você apontou como sinopse, no item a, dois elementos que caracterizam a construção desse
gênero textual.
Em uma sinopse há elementos que a definem enquanto gênero textual. O texto "Como água para chocolate" tem como marca o relato breve, ou seja, descreve de maneira concisa o enredo, como notamos nos trechos a seguir: "Baseado em romance do mesmo nome, (...) acompanha a história de um camponês chamado Pedro (...) que, em 1910, em plena Revolução Mexicana, apaixona-se por Titi (...)". Para o público alvo deve-se passar a confiança da qualidade, outro recurso do gênero sinopse que podemos observar no seguinte excerto: "Podia ser apenas mais uma história de amor, mas trata-se de um dos mais belos filmes do cinema latino-americano em todos os tempos." CAMILA MORAES

Exercício de Escrita IX

Observe o texto abaixo:

Flagrado na Ilha de Caras, Fernando Pessoa disse que está bem mais leve depois que passou a ser um só.


LISBOA – Em pronunciamento que pegou de surpresa o mercado editorial, o poeta e investidor Fernando Pessoa anunciou ontem a fusão dos seus heterônimos. Com o enxugamento, as marcas Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro passam a fazer parte da holding* Fernando Pessoa S.A. “É uma reengenharia”, explicou
o assessor e empresário Mário Sá Carneiro. Pessoa confessou que a decisão foi tomada “de coração pesado”: “Drummond sempre foi um só. A operação dele é enxutinha. Como competir?”, indagou. O poeta chegou a
pensar em terceirizar os heterônimos através de um call-center** em Goa, mas questões de gramática e semântica
acabaram inviabilizando as negociações. “Eles não usam mesóclise”, explicou Pessoa.
http://www.revistapiaui.com.br. Adaptado.

Apesar do texto estar muito próximo ao gênero das “notícias”, empregando principalmente a sequência textual informativa, seu caráter de crítica é bastante forte. Há uma argumentação implícita que revela que a poesia já não vale tanto quanto o dinheiro. Segundo a banca corretora da Unicamp, “Tratar os heterônimos de Fernando Pessoa como se fossem subsidiárias de uma empresa ou de uma marca, reduzindo o ser humano a um objeto a ser explorado economicamente (processo chamado de reificação), além de despertar o riso a partir do absurdo, pretende criticar os indesejáveis resultados da abusiva e avassaladora tendência de fundir empresas e reduzir seu tamanho (enxugar), em especial substituindo os funcionários fixos pela mão de obra mais barata dos países periféricos (terceirização).”

Redija, você também, uma notícia (em que predomine a sequência textual informativa) sobre um fato inventado/ absurdo, de modo a fazer uma crítica implícita através de seu texto.

Outros exemplos:

Chapeuzinho Vermelho no Cidade Alerta:
‘…onde é que a gente vai parar, cadê as autoridades? Cadê as
autoridades? A menina ia pra casa da vovozinha a pé! Não tem transporte público! Não tem transporte público! E foi devorada viva… um lobo, um lobo safado. Põe na tela, primo! Porque eu falo mesmo, não tenho medo de lobo, não tenho medo de lobo, não!`

Crítica implícita: em um contexto em que reina a violência, a história de Chapeuzinho Vermelho não nos surpreenderia nos dias de hoje – nem nos traria nenhuma lição.

HERÓI VAI À MÍDIA PROTESTAR POR SEUS DIREITOS
Insatisfeito com a forma de pagamento obtida pelos salvamentos, um herói cujo nome não foi divulgado, desabafa: "Como pode, em pleno capitalismo eu ainda receber um "obrigado" por arriscar minha vida? Como pode? Por que herói só tem que usar uniforme? Eu quero ter dinheiro para comprar uma roupa decente. Exijo mais dignidade ao meu trabalho, e, de uma vez por todas, o direito de um salário justo. Afinal, faço parte da segurança nacional."
O caso ainda está sendo analisado e deverá ser encaminhado à justiça. Enquanto as autorridades não resolvem a situação do herói, o suposto homem pratica atividades informais para garantir o próprio sustento.
CAMILA MORAES

EX-GOVERNANTES COMENTAM O GOVERNO DILMA ROUSSEF
Em reunião ontem em Gomorra, os ex-líderes políticos e religiosos que governaram grandes impérios comentaram e discutiram a atual situação de governo de países chefiados por mulheres.
A atual presidente do Brasil, Dilma Roussef, que está no governo há 6 meses, foi o assunto mais discutido pela banca dos ex-monarcas. Dentre as pautas mais destacadas, estavam o novo código florestal, o kit anti-homofobia, caso Palocci e o plano de metas do país.
Dentre os líderes, Hamurábi disse que se Palocci roubou 10 milhões do povo, a presidente devia apenas multá-lo, já que ele faz parte da nobreza. Já Calígula, dono de um ponto de vista mais radical, disse que "um cavalo presidente é uma ótima ideia, pois qualquer animal pode governar melhor que uma mulher". Nero acredita que o motivo de toda esta tragédia governamental é o cristianismo: "Não se pode aceitar que membros do próprio governo sigam esta seita pagã", diz. "A governante dessa república denominada Brasil é que deveria ser venerada, mesmo sendo do sexo feminino", acrescenta.
Mas quem gerou mais polêmica foi o ex-autocrata Julio César, que afirmou: "Enquanto o povo aceitar que uma mulher tome as decisões, que uma mulher possa governar e realizar o trabalho que divinamente pertence a nós, homens, o mundo tenderá a desmoronar sobre ruínas, e o apocalipse tomará a Terra".
Quem desenvolveu e discorreu melhor sobre os assuntos tratados foi Péricles, que entre muitas coisas disse que "os homossexuais com mais de 30 anos, nascidos no Brasil, também tem direitos". Sobre o novo código florestal, Péricles disse que "enquanto a nobreza governar, a mata continuará sendo destruída para pagara seus altos gastos, sua corrupção e sua roubalheira".
No final da reunião, os ex-governantes confirmaram a necessidade de tirar Dilma do poder, seja com o uso de forças ou não. Será a chance de Michel Temer mostrar toda a sua capacidade? JOÃO RICARDO DE LUCA