domingo, 6 de maio de 2012

Produção de Texto. Aula 5 - A sequência descritiva (tempo e espaço na narração; descrição subjetiva e objetiva)


Exercício de vestibular

Considere este trecho de um diálogo entre pai e filho (do romance "Lavoura arcaica", de Raduan Nassar):

- Quero te entender, meu filho, mas já não entendo nada.

- Misturo coisas quando falo, não desconheço, são as palavras que me empurram, mas estou lúcido, pai, sei onde me contradigo, piso quem sabe em falso, pode até parecer que exorbito, e se há farelo nisso tudo, posso assegurar, pai, que tem muito grão inteiro. Mesmo confundindo, nunca me perco, distingo para o meu uso os fios do que estou dizendo.

No trecho, ao qualificar o seu próprio discurso, o filho se vale tanto de linguagem denotativa quanto de linguagem conotativa.

a) A frase "estou lúcido, pai, sei onde me contradigo" é um exemplo de linguagem de sentido denotativo ou conotativo? Justifique sua resposta.
A frase é um exemplo de linguagem denotativa, pois usa forma direta e objetiva, o que condiz com a suposta lucidez do personagem.
(Cíntia A. Nagae) 

b) Traduza em linguagem de sentido denotativo o que está dito de forma figurada na frase: "se há farelo nisso tudo, posso assegurar, pai, que tem muito grão inteiro."
A frase, em sentido denotativo, poderia ter a seguinte forma: “Se há coisas sem sentido no que digo, posso assegurar, pai, que também existe muito entendimento e bom senso.” (Fabiano Santiago da Rocha)

Tema de Redação – Unicamp 2008

Coletânea (adaptada)
1) O capítulo dedicado à saúde na Constituição Federal (1988) retrata o resultado de todo o processo desenvolvido ao longo de duas décadas, criando o Sistema Único de Saúde (SUS) e determinando que “a saúde é direito de todos e dever do Estado” (art. 196). A Constituição prevê o acesso universal e igualitário às ações e serviços de saúde, com prioridade para as atividades preventivas, sem prejuízo dos serviços assistenciais.
(Adaptado de “História do SUS” em www.portal.sespa.pa.gov.br, 20/08/2007.)

2) Os grandes problemas contemporâneos de saúde pública exigem a atuação eficiente do Estado que, visando à proteção da saúde da população, emprega tanto os mecanismos de persuasão (informação, fomento), quanto os
meios materiais (execução de serviços) e as tradicionais medidas de polícia administrativa (condicionamento e limitação da liberdade individual). Exemplar na implementação de política pública é o caso da dengue, que se expandiu e tem-se apresentado em algumas cidades brasileiras na forma epidêmica clássica, com perspectiva de ocorrências hemorrágicas de elevada letalidade. Um importante desafio no combate à dengue tem sido o acesso aos ambientes particulares, pois os profissionais dos serviços de controle encontram, muitas vezes, os imóveis
fechados ou são impedidos pelos proprietários de penetrarem nos recintos. Dada a grande capacidade dispersiva do mosquito vetor, Aedes aegypti, todo o esforço de controle pode ser comprometido caso os operadores de campo não tenham acesso às habitações. (Adaptado de Programa Nacional de Controle da Dengue. Brasília:
Fundação Nacional de Saúde, 2002.)

3) Atribuir ao doente a culpa dos males que o afligem é procedimento tradicional na história da humanidade. Na Idade Média, a sociedade considerava a hanseníase um castigo de Deus para punir os ímpios. No século XIX, quando a tuberculose adquiriu características epidêmicas, dizia-se que a enfermidade acometia pessoas enfraquecidas pela vida devassa. Com a epidemia de Aids, a mesma história: apenas os promíscuos adquiririam o HIV. Coube à ciência demonstrar que são bactérias os agentes causadores de tuberculose e hanseníase, que a Aids é transmitida por um vírus, e que esses microorganismos são alheios às virtudes e fraquezas humanas. O
mesmo preconceito se repete agora com a obesidade, até aqui interpretada como condição patológica associada ao pecado da gula. No entanto, a elucidação dos mecanismos de controle da fome e da saciedade tem demonstrado que engordar ou emagrecer está longe de ser mera questão de vontade. (Adaptado de Dráuzio
Varela, “O gordo e o magro”. Folha de São Paulo, Ilustrada, 12/11/2005.)

Trabalhe sua narrativa a partir do seguinte recorte temático:
O avanço da tecnologia e da ciência médica desmistifica muitos dos preconceitos em torno das doenças.
Entretanto, algumas delas, consideradas atualmente problemas de saúde pública, como obesidade, alcoolismo, diabetes, AIDS, entre outras, continuam a trazer dificuldades de auto-aceitação e de relacionamento social.

Instruções:

1- Imagine uma personagem que receba o diagnóstico de uma doença que é tema de campanhas preventivas.

2- Narre as dificuldades vividas pela personagem no convívio com a doença.

3- Sua história pode ser narrada em primeira ou terceira pessoa.

Anônimo
(Ingrid P. Guimarães)

Mais uma noite inundada em meio às mágoas. E ele ia vagando na penumbra, à procura de uma bebida que pudesse afundar suas tristezas e incertezas.
Ele bebia e muito. A cada dose sua existência perdia todo o sentido – era isso o que ele queria. Viver era cansativo. Não aguentava mais os olhares de reprovação e sofria com eles. As pessoas eram más, não entendiam seu sofrimento: beber era o único jeito de encontrar sua amada.
A cada gole ele se sentia mais perto de seu amor, mas com essa aproximação vinha também a solidão. A pessoas não gostavam daquele seu estado de alegria, era menosprezado por ser apenas mais um alcoólico sofrendo as dores do amor.
A exclusão em que se encontrava contribuía para que as doses aumentassem e sua história encurtasse. Mas não se importava com o tempo; a cada noite seu desejo de encontrar a amada era maior do que o de viver. Não queria estar nesse mundo onde não compreendiam a sua sede.
 E mais uma noite chegou. Mais fria e solitária que o normal, com muito mais doses exageradas, que o levariam desse mundo. A sua morte estava certa; seu último gole, mais ainda. E antes que a ressaca chegasse, se foi - como muitos outros alcoólicos. Anônimo aos olhos de todos.

Produção de Textos. Aula 4 - Reescrita (tema bajulação - Unesp 2012)



           A natureza humana tem o desejo de se sentir bem consigo mesma; desse modo, as bajulações conferem-lhe maior força. Contudo, tais atitudes podem provocar o autoengano.
            São famosos os bajuladores que, através da maneira de falar, tentam cativar outras pessoas com o intuito de atingir metas pessoais, seja no trabalho, na escola ou em outro ambiente social.
            Como foi analisado na pesquisa da University of Science and Technology, o cérebro humano é estimulado quando ocorrem situações que envolvem elogios, mesmo que sejam claramente motivados por interesses, o que mostra a necessidade do ser humano de ter seu ego aumentado.
            Situações de “puxa-saquismo” sempre ocorreram na história da humanidade, tanto na época do trovadorismo como nos tempos atuais, podendo ser notadas através das novelas, teatros, textos como o de Machado de Assis e muitos outros, o que mostra como tais atos são comuns a todos, e portanto não devem ser julgados e condenados.
            Contudo, é importante que todos tenham sua própria autoestima, sendo realistas sobre si, para evitar o autoengano, e tendo também o cuidado de não julgar os outros de forma errada.

(Carla Yonekura Faile)

Interpretação de Textos. Aula 4 - Intertextualidades


Exercícios de vestibulares

Fuvest 2012

Leia o seguinte texto:

Pense antes de compartilhar
Cada vez mais pessoas interagem por meio de redes sociais.
O crescimento dessas comunidades reforça uma das principais discussões relativas à internet: a privacidade.
Época, 15/04/2011.

     a) Qual a razão apresentada por essa matéria jornalística para aconselhar seus leitores a “pensar antes de compartilhar”?
A revista chama a atenção dos leitores para o fato de que, apesar da sensação de privacidade, o que você posta na internet é público e pode ser visto por qualquer pessoa. (Fabiano Santiago da Rocha)

Complementando: além disso, há um jogo de palavras implícito, já que o termo “compartilhar” é típico da rede social Facebook.

b) No verbete “privacidade”, do Dicionário Houaiss da língua portuguesa, lê-se:
trata-se de ang. de empréstimo recente na língua, sugerindo-se em seu lugar o uso de ................ .
Por que o dicionário sugere que se evite o uso de “privacidade”? Que palavra pode ser usada em seu lugar?
O dicionário sugere que se evite o uso da palavra “privacidade”, porque ela é um empréstimo recente da língua, ou seja, um termo derivado de estrangeirismo. Pode-se usar, ao invés dela, a palavra “intimidade”. (Andressa dos Santos Coelho)

Unifesp 2010

Leia o texto.

Jesus, que barriga
De um lado a luz, na forma de uma sorridente e radiante Gisele Bündchen, 28 anos, que em seu único desfile na semana de moda em São Paulo exibiu a beleza simpática de costume – sempre com roupas estrategicamente soltinhas. De outro, na mesma passarela, a cara fechada e o peito aberto de Jesus Luz, 22, não namorado de todo mundo sabe quem.
(Veja, 24.06.2009.)

      a) Tendo como referência o uso coloquial e interjetivo que as pessoas fazem da palavra Jesus e o texto apresentado, faça duas interpretações possíveis e coerentes para a frase Jesus, que barriga.
A palavra “Jesus” pode ser interpretada como uma exclamação de admiração causada pela barriga (por esta ser bonita e atraente) e também fazer referência ao modelo Jesus Luz, ao qual o texto faz menção posterior.
(Fabiano Santiago da Rocha)

b) Tomando como parâmetro a referência ao semblante das personalidades citadas, nomeie a relação de sentido estabelecida entre eles, utilizando termos que justifiquem sua resposta.
O texto procura destacar a diferença entre Gisele “sorridente e radiante” e Jesus Luz “de cara fechada”, estabelecendo um sentido de contradição e de oposição, uma antítese.
(Fabiano Santiago da Rocha)

FGV 2009

Leia o texto.
Amorim, pede pra sair
O fracasso das negociações comerciais de Doha ecoa a falência verbal que levou o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, a entrar nas reuniões com o pé esquerdo e a sair delas com a autoridade destroçada por duas declarações de natureza intrinsecamente perversa.
(Veja, 06.08.2008)

      a) Explique o título do texto, associando-o às informações apresentadas.
O título do texto está associado ao fato de o ministro Celso Amorim não aguentar a pressão do cargo de Ministro das Relações Exteriores e está interligado ao filme “Tropa de Elite”, que tornou conhecido o bordão “pede pra sair”.
(Andrei Henrique R. de Lima)

     b) Se fosse retirada a vírgula do título do texto, haveria alteração de sentido? Justifique a sua resposta.
Sim, se a vírgula fosse retirada o sentido da frase mudaria completamente, pois ao invés de ser um conselho a Amorim (para que ele saísse do cargo), seria uma afirmação de que Amorim pediu para abandonar sua posição de ministro.
(Andressa dos Santos Coelho)

Exercícios de escrita

Proposta: elaborar trocadilhos em que haja alguma intertextualidade.

Exemplos:

Quem afiou o Machado de Assis? Lima Barreto.

Eu vim de lá, o Salvador Dalí.

Pedro é cego, a Lady GaGa.

Eu prefiro a quina, o Ayrton Senna.

Eu quero guerra, a Bárbara Paz.

Que Deus olhe por mim e que Celso Portiolli.

Eu gosto de Chapolin, o Hugo Chávez.

Eu prefiro ônibus. O James Bond.

Eu prefiro cachorro, o Paulo Coelho. (Andressa dos Santos Coelho)

Acham o Brasil feio, a Nair Belo. (Andressa dos Santos Coelho)

Pagaria rios de dinheiro para morar onde Marilyn Monroe. (Fabiano Santiago da Rocha)

Interpretação de Textos. Aula 3 - Texto, Contexto e Interlocução


Questões de Vestibulares


Unicamp 2012 – Sobre Texto e Linguagens

TEXTO I 

Entre 1995 e 2008, 12,8 milhões de pessoas saíram da condição de pobreza absoluta (rendimento médio domiciliar per capita até meio salário mínimo mensal), permitindo que a taxa nacional dessa categoria de pobreza caísse 33,6%, passando de 43,4% para 28,8%.
No caso da taxa de pobreza extrema (rendimento médio domiciliar per capita de até um quarto de salário mínimo mensal), observa-se um contingente de 13,1 milhões de brasileiros a superar essa condição, o que possibilitou reduzir em 49,8% a taxa nacional dessa categoria de pobreza, de 20,9%, em 1995, para 10,5%, em 2008.
(Dimensão, evolução e projeção da pobreza por região e por estado no Brasil, Comunicados do IPEA, 13/07/2010, p. 3.)

Texto II


(BENETT, chargesdobenett.zip.net. 21/10/2011.) 

a) Podemos relacionar os termos miséria e pobreza, presentes no TEXTO II, a dois
conceitos que são abordados no TEXTO I. Identifique esses conceitos e explique por que eles podem ser relacionados às noções de miséria e pobreza.

Os termos “miséria” e “pobreza”, presentes no texto II, podem ser relacionados respectivamente aos conceitos de “pobreza extrema” e “pobreza”, no texto I. A mudança do termo “miséria” mostra a necessidade de diminuir a diferença entre pobres e miseráveis, que basicamente possuem rendimento muito próximo.
(Fabiano Santiago da Rocha)


      b) Que crítica é apresentada no TEXTO II? Mostre como a charge constrói essa crítica.
A crítica está no modo como as personagens da charge medem o nível de pobreza, deixando claro que a diferença entre eles é quase inexistente. A charge satiriza essa ideia através da figura de um esgoto a céu aberto, sem saneamento básico; neste contexto, a linha que separa o pobre do miserável não faz diferença, já que o esgoto e a falta de recursos afetam igualmente os dois lados.
(Mariana Souza Cândido)

Unesp 1995 – Sobre contexto

Capítulo VII
Figura, Vestido, E Outras Coisas Do Homem.
Assim que os personagens dos romances começam a ganhar a estima ou aversão de quem lê, vem logo ao leitor a vontade de compor a fisionomia do personagem plasticamente. Se o narrador lhe dá o bosquejo, a imaginativa do leitor aperfeiçoa o que sai muito em sombra e confuso no informe debuxo do romancista. Porém, se o descuido ou propósito deixa ao alvedrio de quem lê imaginar as qualidades corporais de um sujeito importante como Calisto Elói, bem pode ser que a intuição engenhosa do leitor adivinhe mais depressa e ao certo a figura do homem, que se lhe a descrevessem com abundância de relevos e rara habilidade no estampá-los na fantasia estranha.
Não devo ater-me à imaginação do leitor neste grave caso.
Calisto Elói não é a figura que pensam. Estou a adivinhar que o enquadraram já em molde grotesco, e lhe deram a idade que costuma autorizar, mormente no congresso dos legisladores, os desconcertos do espírito, exemplificados pelo deputado por Miranda. Dei azo à falsa apreciação, por não antecipar o esboço do personagem.
(Castelo Branco, Camilo. A QUEDA DUM ANJO in
Obra Seleta - I. Rio de Janeiro: Aguillar, 1960, p.807.)

Embora seja bastante frutífera a consulta ao dicionário, em muitos casos não temos necessidade de buscar os significados de certas palavras ou expressões, pois é possível entendê-los no contexto. Com base nesta observação, releia o trecho de Camilo e, a seguir:
 
a) Escreva os significados de "bosquejo" e "alvedrio".
“Bosquejo” significa “esboço” e “alvedrio” significa vontade própria, arbítrio.
(Andrei Henrique R. de Lima)

b) Cite a frase do segundo parágrafo em que o narrador admite que, por não ter dado o bosquejo de Calisto Elói, ofereceu ao leitor o ensejo de um entendimento errado do personagem.
O autor admite ter dado ao leitor margem para um entendimento errado ao dizer: “Dei azo à falsa apreciação, por não antecipar o esboço do personagem.”
(Fabiano Santiago da Rocha)

UFG 2005 – Sobre interlocução

A tira tem como um de seus objetivos a expressão do humor. O plano narrativo descreve as situações que justificam a atitude do personagem em relação à geração que marcou os anos 1960, da qual ele fez parte.

a) Explique, recorrendo à seqüência dos quadros, como o autor define os comportamentos dessa geração.
Na tirinha, o autor mostra em cada quadro características que ele desgostava em sua geração e para isso ele dispôs os quadros em uma sequência que também pode ser interpretada como a ordem de importância que aquela geração dava a seus atos. Eles eram politizados, com ideias do que era bom ou mau, certo ou errado (na concepção deles). Mas eles também se perdiam no meio de seu discurso,tinham atitudes que anulavam muitas vezes o que era dito por eles, perdiam facilmente sua credibilidade.
(Andressa dos Santos Coelho)
 
b) O último quadro da tira retrata uma indisposição do interlocutor em dar continuidade ao assunto iniciado pelo locutor. Analise como se dá a ruptura na interação entre os dois personagens e, tendo como referência os quadros anteriores, justifique por que isso ocorre.
O interlocutor parece não levar a sério ou não se importar com o que o locutor tem a dizer; isso se dá pela possível falsidade dos comportamentos da geração, que na verdade não ligava para nada realmente importante. (Fabiano Santiago da Rocha)


quarta-feira, 21 de março de 2012

Aula 3. Sequência instrutiva (os tipos de persuasão)

(UNESP 2012)
As reações do cérebro à bajulação

Pesquisa mostra que se você for bajular alguém é melhor fazer elogios descarados

Não é o que os meritocratas convictos gostariam de ouvir. Uma pesquisa da escola de negócios da Hong Kong University of Science and Technology indica que a bajulação tem um efeito marcante no cérebro da pessoa bajulada. Mais surpreendente do que isso é a conclusão do estudo de autoria de Elaine Chan e Jaideep Sengupta: quanto mais descarada a bajulação, mais eficiente ela é. A pesquisa deu origem a um artigo no Journal of Marketing Research, intitulado Insincere Flattery Actually Works (“Bajulação insincera de fato funciona”, numa tradução literal) e rapidamente chamou a atenção da imprensa científica mundial.
Os autores são cautelosos ao afirmar que puxar o saco funciona, mas é nessa direção que sua pesquisa aponta. Elaine e Sengupta criaram situações nas quais os pesquisados foram expostos à bajulação insincera e oportunista. Numa delas, distribuíram um folder entre os pesquisados que detalhava o lançamento de uma nova rede de lojas. O material publicitário elogiava o “apurado senso estético” do consumidor. Apesar do evidente puxa-saquismo, o sentimento posterior das pessoas foi de simpatia em relação à rede. Entre os participantes, a medição da atividade cerebral no córtex pré-frontal (responsável pelo registro de satisfação) indicou um aumento de estímulos nessa região. O mesmo ocorreu em todas as situações envolvendo elogios.
Segundo os pesquisadores, a bajulação funciona devido a um fenômeno cerebral conhecido como “comportamento de atraso”. A primeira reação ao elogio insincero é de rejeição e desconsideração. Apesar disso, a bajulação fica registrada, cria raízes e se estabelece no cérebro humano. A partir daí, passa a pesar subjetivamente no julgamento do elogiado, que tende, com o tempo, a formar uma imagem mais positiva do bajulador. Isso vale desde a agência de propaganda até o funcionário que leva um cafezinho para o chefe. “A suscetibilidade à bajulação nasce do arraigado desejo do ser humano de se sentir bem consigo mesmo”, diz Elaine Chan. A obviedade e o descaramento do elogio falso, paradoxalmente, conferem-lhe maior força. Segundo os pesquisadores, é a rapidez com que descartamos os elogios manipuladores que faz com que eles passem sem filtro pelo cérebro e assim se estabeleçam de forma mais duradoura.
Segundo Elaine e Sengupta, outro fator contribui para a bajulação. É o “efeito acima da média”. Temos a tendência de nos achar um pouco melhor do que realmente somos, pelo menos em algum aspecto. Pesquisas com motoristas comprovam: se fôssemos nos fiar na autoimagem ao volante, não haveria barbeiros. Isso vale até para a pessoa com baixa autoestima. Em alguma coisa, ela vai se achar boa, nem que seja em bater figurinha.
Mas se corremos o risco de autoengano com a ajuda do bajulador, como se prevenir? “Desenvolvendo uma autoestima autêntica”, diz Elaine. A pessoa equilibrada, que tem amor-próprio, é mais realista sobre si mesma, aceita-se melhor e se torna mais imune à bajulação.
(As reações do cérebro à bajulação. Época Negócios, março de 2010, p. 71.)

PROPOSIÇÃO
Bajular, lisonjear, adular, puxar saco são atitudes consideradas, muitas vezes, defeitos de caráter ou deslizes de natureza ética; são, também, condenadas pelas próprias religiões, como vícios ou “pecados”. As ficções literárias, teatrais e cinematográficas estão repletas de tipos bajuladores, lisonjeadores, aduladores, puxa-sacos, quase sempre sob o viés do ridículo e do desvio de caráter. Modernamente, porém, pelo menos em parte, essa condenação à bajulação e à lisonja tem sido atenuada, e até mesmo justificada por alguns como parte do marketing pessoal, ou como estratégia para atingir metas, dado o fato de que, como se informa no próprio artigo acima apresentado, até o elogio mais insincero pode encontrar eco na mente e no coração do elogiado. Na passagem do conto de Machado de Assis, apresentada nesta prova, Clemente Soares acabou atingindo seus objetivos por meio da bajulação, e a personagem Fagundes, de Laerte, parece viver sempre feliz em sua atividade preferencial de bajular.
Reflita sobre o conteúdo dos três textos mencionados e elabore uma redação de gênero dissertativo, empregando a norma-padrão da língua portuguesa, sobre o tema:
A bajulação: virtude ou defeito?


Textos que estavam na prova (comentados na proposta do tema):
Um homem superior

Quis a desgraça de Medeiros [patrão de Clemente] que os negócios lhe corressem mal; duas ou três catástrofes comerciais o puseram às portas da morte. Clemente Soares fez quanto pôde para salvar a casa de que dependia o seu futuro, mas nenhum esforço era possível contra um desastre marcado pelo destino, que é o nome que se dá à tolice dos homens ou ao concurso das circunstâncias.
Achou-se sem emprego nem dinheiro.
(...)
No pior da sua posição, recebeu Clemente uma carta em que o comendador o convidava a ir passar algum tempo na
fazenda. Sabedor da catástrofe de Medeiros, queria o comendador naturalmente dar a mão ao rapaz. Este não esperou que repetisse o convite. Escreveu logo dizendo que daí a um mês se poria em marcha.
Efetivamente um mês depois saía Clemente Soares em caminho do município de***, onde era a fazenda do comendador Brito.
O comendador esperava-o ansioso. E não menos ansiosa estava a moça, não sei se porque já lhe tivesse amor, se porque ele fosse uma distração no meio da monótona vida rural.
Recebido como amigo, tratou Clemente Soares de pagar a hospitalidade, fazendo-se conviva alegre e divertido.
Ninguém o poderia melhor do que ele.
Dotado de grande perspicácia, compreendeu em poucos dias como entendia o comendador a vida do campo, e tratou de o lisonjear por todos os modos.
Infelizmente, dez dias depois da sua chegada à fazenda, adoeceu gravemente o comendador Brito, por maneira que o médico poucas esperanças deu à família.
Era ver o zelo com que Clemente Soares servia de enfermeiro do doente, procurando por todos os meios suavizar-lhe os males. Passava noites em claro, ia aos povoados quando era necessário fazer alguma coisa mais importante, consolava o doente já com palavras de esperanças, já com animada conversa, cujo fim era distraí-lo de pensamentos lúgubres.
— Ah! dizia o pobre velho, que pena que eu o não conhecesse há mais tempo! Bem vejo que é um verdadeiro amigo.
— Não me elogie, comendador, dizia Clemente Soares, não me elogie, que é tirar o mérito, se o há, destes deveres agradáveis ao meu coração.
O procedimento de Clemente influiu no ânimo de Carlotinha, que nesse desafio de solicitude soube mostrar-se esposa
dedicada e reconhecida. Ao mesmo tempo fez com que em seu coração se desenvolvesse o gérmen de afeto que Clemente de novo lhe lançara.
Carlotinha era uma moça frívola; mas a doença do marido, a perspectiva da viuvez, o desvelo do rapaz, tudo fez nela
uma profunda revolução.
E mais que tudo, a delicadeza de Clemente Soares, que, durante esse tempo de tão graves preocupações para ela, nenhuma palavra de amor lhe dirigiu.
Era impossível que o comendador escapasse à morte.
(Machado de Assis. Contos fluminenses, vol. II. São Paulo: Editora Mérito, 1962, p. 103-105.)


A relatividade da bajulação
(Lucas Caraça)

Ver o copo de água como "meio cheio" ou "meio vazio" é relativo. A mesma figura pode implicar ora em algo positivo, ora em algo negativo - depende de quem a observe. Quando se fala em bajulação, a relatividade também existe. Para o bajulador, quando seus lisonjeios têm eficiência, ou seja, quando consegue manipular o bajulado de modo a conquistar algo que deseja (seja a retribuição do elogio para aumentar sua autoestima, seja algo material), a bajulação é uma virtude. Para aquele que é manipulado, entretanto, a bajulação pode vir a ser um defeito - afinal, quem é que se sente bem ao ser enganado com falsos elogios?
Para justificar quando a adulação vira uma virtude, se pode usar como exemplo o fato de que, desde que surgiu, o homem compete com seu semelhante. Nos primórdios a força física era frequentemente utilizada quando se queria alcançar determinados objetivos; nos tempos atuais, quase sempre é a capacidade intelectual que cumpre essa função.
Assim, o homem deve saber usar a capacidade de bajular a seu favor, para, por exemplo, conquistar uma vaga de emprego (típica situação em que se deve, de certa forma, manipular o entrevistador), caso em que a bajulação, utilizada de maneira correta, pode ser usada em benefício próprio - já que se trata de uma situação de competição.
Quando utilizada de maneira não prejudicial ao outro, a bajulação pode ser considerada uma virtude. Contudo, se torna facilmente um defeito quando o contrário acontece, como, por exemplo, quando alguém a utiliza apenas para aumentar seu status utilizando outras pessoas como degrau. 

Aula Livro 1. Sentimento do Mundo (Carlos Drummond de Andrade)

UFU 2007
PRIVILÉGIO DO MAR

Neste terraço mediocremente confortável,
bebemos cerveja e olhamos o mar.
Sabemos que nada nos acontecerá.

O edifício é sólido e o mundo também.

Sabemos que cada edifício abriga mil corpos
labutando em mil compartimentos iguais.
Às vezes, alguns se inserem fatigados no elevador
e vêm cá em cima respirar a brisa do oceano,
o que é privilégio dos edifícios.

O mundo é mesmo de cimento armado.

Certamente, se houvesse um cruzador louco,
fundeado na baía em frente da cidade,
a vida seria incerta... improvável...
Mas nas águas tranqüilas só há marinheiros fiéis.
Como a esquadra é cordial!

Podemos beber honradamente nossa cerveja.


Carlos Drummond de Andrade. "Sentimento do mundo".

Considerando o poema acima e a obra "Sentimento do mundo", marque a alternativa INCORRETA.
a) O terraço, neste poema, é lugar de encontros amorosos, pois "abriga mil corpos", o que caracteriza o texto como lírico amoroso, de influência romântica.
b) No último verso, a palavra "honradamente" confere um sentido irônico ao poema, pois caracteriza uma classe social privilegiada, indiferente aos problemas que não lhe afligem de maneira direta.
c) O edifício de "cimento armado", neste poema, confronta-se com o espaço de outro poema do livro "Morro da Babilônia", metaforizando duas classes sociais: a primeira, protegida em seus privilégios, e a última, excluída e ameaçadora.
d) O poema acima confirma a vocação de poeta social em Drummond, que coloca, em vários momentos, a poesia a favor da denúncia, e que nestes versos se reflete na idéia de privilégios econômicos para um segmento social específico.

Resposta: A

UFV 2000

Mãos dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.


(ANDRADE, Carlos Drummond de. "Antologia poética". Rio de Janeiro: Record, 1998, p.118)
Todas as alternativas seguintes correspondem a uma leitura possível do poema drummoniano, EXCETO:
a) O poema revela-nos um eu-lírico que, ignorando o passado e o futuro, opta por conhecer a realidade de seu próprio tempo.
b) O poeta renuncia ao isolamento voluntário e reafirma sua solidariedade aos companheiros, dos quais não pretende mais se afastar.
c) Ao voltar-se para a vida presente o poeta demonstra uma preocupação maior com o seu momento histórico.
d) O poeta busca a convivência com os outros homens à sua volta, não pretendendo, pois, entregar-se aos devaneios e à solidão.
e) O autor de "Mãos dadas" quer unir-se a seus semelhantes para libertar-se do passado, do presente, e do futuro de um mundo caduco que o sufoca.

Resposta: E



PUC 2002

Texto 1
A ciência do medo e da dor

[...]
As razões pelas quais sentimos dor são muito parecidas com as que nos fazem sentir medo. Do ponto de vista evolutivo, as atuais reações de medo talvez sejam um refinamento das reações mais primitivas de dor. Nesse aspecto, a capacidade de sentir dor é tão importante quanto a de sentir medo: motivar respostas de defesa diante de estímulos ameaçadores. Pessoas que de algum modo tornaram-se insensíveis à dor não reagem prontamente a estímulos desse tipo e por isso acidentam-se facilmente, sofrendo cortes, queimaduras ou até lesões ósseas.
As informações neurais de dor têm sua origem em receptores ou terminações nervosas presentes na pele, em músculos e em órgãos internos. Esses receptores transformam os ¢estímulos nociceptivos (táteis, mecânicos ou térmicos) em impulsos nervosos e os transmitem para o cérebro. Os sinais associados a estímulos de dor são especialmente eficazes em provocar medo, mas o estímulo doloroso, por si só, não causa qualquer reação de medo - isso ocorre graças à associação do estímulo da dor com outros estímulos ambientais.
[...]
Nota: nociceptivo (adj.): capaz de transmissão de dor
(Cruz, A.P.M. e Landeira-Fernandez, J. de. "Revista Ciência Hoje", vol. 29, n¡. 174, p. 21-22.)


Texto 2
Confidência do Itabirano
Carlos Drummond de Andrade

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade
[e comunicação..

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem
[mulheres e sem horizontes.

E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!

(In "Obra Completa". 6� ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, p. 57)

a) É comum caracterizar-se a dor como um fenômeno negativo. Explique como o texto 1 aponta para a possibilidade de considerá-la, ao contrário, como um fenômeno positivo.
De acordo com o texto 1, podemos caracterizar a dor como um fenômeno positivo e não negativo (como o usual), uma vez que aquele que crê que irá sentir dor tem medo, um estímulo que reduz suas chances de se envolver em algum acidente ou evento doloroso. (Juliana Katib)

b) Com base na leitura dos textos 1 e 2, compare os "estímulos nociceptivos" (texto 1, ref. 1) e a "fotografia na parede" (texto 2, verso 20) como elementos deflagradores de dor.
O poema se caracteriza pela evocação das memórias do eu-lírico, que se constituem de lembranças tristes da cidade de Itabira ("A vontade de amar, que me paralisa o trabalho, vem de Itabira"; "E o hábito de sofrer, que tanto me diverte, é doce herança itabirana"). Ao olhar a fotografia na parede, o poeta a relaciona imediatamente à dor que a cidade lhe desperta - a fotografia, portanto, o impede de desejar voltar a Itabira, assim como um estímulo nociceptivo consegue fazer com que pessoas não se arrisquem em atividades que possam causar dor.

c) Uma das características da poética de Carlos Drummond de Andrade é a recorrência de figuras que simbolizam o ser desajeitado, o homem torto, a criatura deslocada e afastada dos homens comuns. Transcreva um verso do poema que ilustre essa condição do poeta como ser deslocado diante das coisas do mundo. Justifique sua escolha.

O verso "E o hábito de sofrer, que tanto me diverte, é doce herança itabirana" revela como o eu-lírico se sente deslocado, se divertindo com a própria dor. (Juliana Katib)

UFU 1999
"Canção Amiga"

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças."

(Carlos Drummond de Andrade, ANTOLOGIA POÉTICA)

Considere o poema acima e faça o que for pedido.

a) Explique a razão pela qual esse poema pode ser considerado lírico. Fundamente sua resposta com trechos do poema.
O poema "Canção amiga" pode ser considerado lírico porque a voz lírica exprime seus sentimentos e reflexões. Este ato fica claro quando lemos "Eu preparo uma canção em que minha mãe se reconheça"; "Minha vida, nossas vidas formam um só diamante" e "Aprendi novas palavras e tornei outras mais belas". (Aline Lima da Silva)

b) Se houvesse mudança da pessoa verbal do poema para a 3ª� pessoa, ainda assim o poema poderia ser considerado lírico? Fundamente sua resposta com trechos do poema.
Se o poema fosse escrito na 3ª pessoa não seria mais considerado lírico, pois no gênero lírico é a voz do eu-lírico que se expressa, usando a 1ª pessoa do singular para expor seus snetimentos e sensações. Se fosse transposto para a 3ª pessoa, provavelmente se aproximaria mais de um poema de cunho narrativo. (Aline Lima da Silva)

UFV